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sábado, 25 de abril de 2015

AMOR INFANTIL E AMOR ADULTO

Imagem google

O fisiologista britânico Joseph Barcroft, que dedicou sua vida e privilegiada inteligência a entender os mistérios da respiração e da vida intra-uterina e que tornou-se célebre por emprestar o próprio corpo a ousados e instigantes experimentos médicos que visavam entender os mecanismos do sistema respiratório, sentenciou na maturidade: "A noção de vida liga-se tão intimamente à de respiração que o próprio termo expiração passou a significar extinção da vida e o termo inspiração, a elevação da vida a níveis sobre-humanos.
" É verdade, o sentimento popular de que respirar é viver é quase onipresente. E essa equação tem desdobramentos: respirar bem é viver bem; respirar mais ou menos é viver mais ou menos, respirar mal é viver mal, quando a respiração nos falta, sentimos a vida nos escapando, quando a respiração é fluente e fácil, torna-se tão fácil sentirmo-nos vivos que facilmente nos esquecemos de que estamos vivos.
É verdade, mas faltou assinalar que, além de significar vida, a respiração também é sinônimo de consciência e inteligência. Vinte por cento do ar que respiramos é consumido pelo cérebro, detentor de menos de dois por cento de nossa massa corporal. Nossa capacidade de discernir, entender e administrar a vida é alimentada e mantida pela respiração e, dessa maneira, respirar com amplidão significa alimentar a inteireza de nossas capacidades mentais. 
E, quanto à inteligência, a frase de Brancroft deixa passar um lapso de sua reconhecida lucidez e espírito crítico, um descuido comum entre pessoas notadamente inteligentes: desde pequenos nos foi passada a associação entre inspiração e criatividade, mas, inspiração é o momento em que o ar entra em nós, em que pegamos algo de fora; a criatividade devia estar muito mais ligada à expiração, o momento em que algo sai de nós para os outros, para o mundo. 
Fomos treinados a nos inspirarmos em Van Gogh para pintar um quadro, ou em Nietzsche para dizer algo, ou em Tom Jobim para compor uma música, sempre algo que vem de fora. A criatividade deveria mesmo ser associada à ideia de expiração. Em meus grupos de Terapia da Respiração, tenho constatado ser muito mais efetivo trabalhá-la com exercícios focados na expiração - ou no momento em que passamos da inspiração para a expiração.
Mas, esse é um passo a ser dado. A alguma hora. Que pode ser agora. Por termos sido ensinados a seguir modelos que nos são introduzidos de fora para dentro, ignoramos que podemos ser indivíduos, ignoramos que já o somos, mas que nosso indivíduo está adormecido, congelado dentro de nós, esperando o dia em que será acordado, reabilitado. 
Quando entendermos os mecanismos da respiração, descobriremos que temos a chave para esse "acordar", o calor da fricção de seu vento, da sua energia, é capaz de descongelar, de maneira não traumática, o gelo que se acumulou em camadas milenares em torno de nossa individualidade esquecida. Qualquer um de nós - incluindo você e eu - é capaz de expressar sua personalidade e maneira única - e por isso bela - de ser, com a mesma verdade e grandeza com que um Van Gogh, um Nietzsche ou um Tom Jobim o fizeram. E a respiração pode ser o ovo de Colombo, o meio simples e óbvio para que realizemos isso.
Respiração é alimento, que pode nutrir o gelo que nos envolve ou aquilo que está envolvido por esse gelo: nossa inteligência. Se estamos inconscientes da respiração, ela alimenta nossa inconsciência, reforça em nós tudo o que nos inclina à inconsciência. Quando melhoramos nossa percepção da respiração, alimentamos nossa consciência, tornamos tão vital a consciência que vinha sufocada, soterrada, que ela não se contém mais sob as camadas sedimentares de ignorância e descaso que a cercam; ela começa por abrir frestas e dar sinais de criatividade, até por fim, irrompê-las e mostrar sua face. Simples assim. Como ovo de Colombo. À frente de nosso nariz e ao alcance de nossas mãos, o tempo todo, quando quer que decidamos usá-la.
Respiração é alimento, e, desde bebês, desde os seios de nossa querida mãe, associamos, muito diretamente, alimento a amor. Dessa maneira, liberdade para aceitar a respiração é também liberdade para aceitar o amor, plenitude de respiração é potencialmente plenitude amorosa, respirar mais é amar mais e respirar menos é amar menos. Respiração não é apenas sinônimo de consciência, mas também de amor. E, mais uma vez, uma chave fundamental pode estar guardada na expiração, e não na inspiração, a chave do amor pode estar em dar, em lugar de receber.
O bebê recebe alimento e amor da mãe, os dois se tornam dois lados de uma mesma moeda e nesse momento o amor está ligado à inspiração, ao receber. E, talvez daí, desses anos de dependência tenha ficado congelada a noção de que amor é receber; e o da criança realmente o é. O amor adulto é de uma qualidade diferente, está mais presente no exercício da expiração. No dar, que a mãe experimenta ao amamentar. E se ela não o fizer, seus seios irão doer. Da mesma maneira, se não dermos o amor que brota espontâneo como o leite das glândulas mamárias, sentiremos congestão interna e dor. E, para não senti-la, cultivaremos a inconsciência, pela diminuição - ou quase supressão - da respiração.
No início da vida somos como sementes de abacate que precisam de chuva para se desenvolver, quando adultos deveríamos nos tornar frondosos abacateiros, que dão seus frutos para alimentar inúmeras outras vidas. Esse é o ciclo da vida; esse é o ciclo da inspiração e expiração.
Se no início da vida, o objeto de amor e nutrição é o mesmo, a mãe, essa pode se comportar de diversas maneiras. O alimento e o calor vêm dali, daquele par de seios, mas essa mãe pode amar ou não a o filho, pode amá-lo mais ou menos. Isso tornará esses seios mais ou menos quentes, mais ou menos sensíveis, mais ou menos vibrantes, e tornará nossa noção de amor como sendo abundante ou rarefeito. Se a mãe ama o filho, amamentar se torna uma experiência de êxtase para ela, seus seios permanecem sensíveis e a criança se identifica com essa sensibilidade, ela percebe que a mãe está gostando, não está simplesmente alimentando-a de leite. 
Mas se a mãe está apenas cumprindo uma necessidade, se ela está com pressa de sair dali, pensando em outros interesses, a criança sente essa frieza e se sente não desejada. Ambos os casos interferem na respiração da criança, na instituição de seu padrão respiratório inicial, mas interferem principalmente na maneira de inspirar da criança. Sua expiração permanece, de alguma maneira, mais defendida de interferências, como uma chave para que, posteriormente, a criança possa mudar esses padrões iniciais.
A expiração está para a sensibilidade como a inspiração está para a atividade. Quando a criança tem sua sensibilidade ferida pela insensibilidade dos adultos que a cercam, ela instintivamente se defende colocando sua atenção na expiração - por vezes tornando-a bem mais lenta que a inspiração - e ela cria um "cofre" onde a protege, para todo o sempre. Mas, muitas vezes, perde a chave, ou se esquece do segredo na vida adulta. A chave porém, está sempre ali, à frente de seu nariz, na consciência da expiração.
O amor infantil era focado na inspiração e (sobre)vivia em estado de total dependência; o adulto, por ser muito mais focado na expiração, tem sempre a possibilidade de existir em plenitude, em situações propícias ou adversas. Ser mestre da própria lucidez e amorosidade, começa por se viver consciente da própria expiração.
Autor: Pedro Tornagh
Fonte: http://www.fatimahborges.com.br/artigo.php?code=320

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O CÍRCULO VICIOSO DO AMOR IMATURO








Há alguns anos atrás em um momento delicado de minha vida quando estava sofrendo muito por conta de escolha  irrefletida que fizera, dediquei bastante tempo à leitura e reflexão, tentando entender a razão de estar naquela situação. 
Nesta oportunidade as leituras que fiz do livro "Não Temas o Mal" de Eva Pierrakos e em especial este trecho, foram fundamentais na compreensão de mim mesma e um primeiro passo para as necessárias transmutações.
Espero que esta leitura tenha algum valor para os leitores bem como a indicação do livro.

O círculo vicioso do amor imaturo começa na infância. A criança é indefesa, ela precisa de cuidados; ela não pode suster-se sobre as próprias pernas; ela não pode tomar decisões maduras; ela não pode ser livre de motivações fracas e egoístas. Por consequência, a criança é incapaz de um amor altruísta. 

O adulto maduro desenvolve-se em direção a esse amor desde que a personalidade amadureça harmoniosamente e contanto que nenhuma das reações infantis permaneça no inconsciente. Se isso acontece, apenas uma parte da personalidade vai crescer, enquanto outra parte - por sinal muito importante - continuará imatura.
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A criança, em sua  ignorância anseia por um amor exclusivo que não é humanamente possível. Ela não quer dividir amor com os outros, irmãos ou irmãs ou mesmo com um dos pais. A criança com frequência tem ciumes de ambos os pais. Contudo quando os pais não se amam a criança sofre ainda mais. Assim o primeiro conflito surge de dois desejos opostos. 

A criança não compreende que apesar da sua imperfeição os pais são plenamente capazes de amar mais de uma pessoa. Por não compreender este fato, ela se sente rejeitada e excluída se o pai ou a mãe amam outras pessoas. Em resumo, seus anseios nunca podem ser satisfeitos.

 Essa frustração causa ódio e ressentimento, hostilidade e agressão em relação às mesmas pessoas a quem mais ama e a quem deve respeito. Este fato cria um grande conflito na psique humana. Sentindo-se envergonhada por sentir estas emoções que considera más, erradas e pecaminosas, coloca este conflito no inconsciente. Ao sentir-se culpado o inconsciente diz: mereço ser castigado. 

E aí surge o medo do castigo na alma. Em consequência, sempre que está feliz ou sente prazer a pessoa sente que não o merece. A culpa por odiar aqueles que mais ama convence a criança de que não é merecedora de nada que seja bom, alegre e prazeroso. Ela acha que por ser feliz o castigo seria ainda maior.

 Esta fuga da felicidade cria situações e padrões que sempre parecem destruir tudo que é mais ardentemente desejado na vida. Esta situação pode gerar dois tipos de conduta: o desejo de autopunição (é melhor eu me punir do que ser punido por outras pessoas) ou então a personalidade pode concluir: Se eu for perfeito, se eu não tiver falhas nem fraquezas, seu eu for o melhor em  tudo que fizer, então eu posso compensar o meu ódio e ressentimento do passado. 


É óbvio que nem uma solução nem outra levam a qualquer tipo de satisfação na vida porque partem de conclusões erradas. Na realidade ninguém precisa ser punido, o modo de eliminar falhas verdadeiras é muito mais construtivo. 


Neste processo foi criada uma segunda consciência motivada por fraqueza e medo a qual é muito orgulhosa para perceber que você não pode ser tão perfeito ainda. Este orgulho também impede que você se aceite como é agora. Isto gera sentimento de inadequação e inferioridade. 



Como consequência esta falsa consciência se propõe uma nova e falsa solução: se eu receber muito amor, respeito e admiração dos outros isso traria a satisfação pela qual eu originalmente ansiava e me foi negada. 

Aqui o círculo se fecha e a necessidade de ser amado se torna ainda mais compulsiva do que inicialmente. Quando todo este círculo vicioso se tornar consciente, compreendido e emocionalmente sentido e quando estivermos dispostos a amar na mesma medida em que desejamos ser amados é  que o amor virá para nossa vida. 

A criança interior tem um anseio imaturo por amor, por ser cuidada e acarinhada mesmo por pessoas a quem ela não tem a intenção de retribuir o amor. A proporção entre a disposição de dar e receber amor  é muito desigual. 

Em razão desse desequilíbrio básico esse esquema não funcionará pois as leis divinas são sempre justas e equilibradas. De acordo com esta lei, tudo que você dá fluirá de volta. Trabalhando no sentido de descobrir esse circulo e vivenciá-lo você passará a ter a possibilidade de dissolvê-lo.

A alma humana contém toda a sabedoria, toda a verdade de que precisa mas elas são encobertas por este círculo de falsas premissas e falsas soluções. 

Quebrando o círculo vicioso e trabalhando cada elo desta corrente você, finalmente libertará a sua voz interior de sabedoria que o vai orientar de acordo com a consciência divina e segundo seu plano pessoal.

Compilado do livro: Não temas o mal  - Eva Pierrakos e Donovan Thesenga