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segunda-feira, 20 de abril de 2015

COMO FUNCIONA A DITADURA DO CONSUMO (EDUARDO GALEANO)

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A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?
A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.
A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.
Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.
Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.
O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.
Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.
Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.
Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.
As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.
Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.
Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.
A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.
As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.
Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?
O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.
O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.
A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.
Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.
O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?
A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.
A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
*Eduardo Galeano, falecido neste abril de 2015, foi considerado um dos principais escritores e pensadores políticos da América Latina do último século. O uruguaio escreveu mais de 40 livros. Esta publicação é uma homenagem póstuma ao escritor.  

Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/04/eduardo-galeano-ditadura-do-consumo.html

domingo, 15 de abril de 2012

A ILUSÃO DA BUSCA.



A ILUSÃO DA BUSCA.


Se perceber que no contexto amplo, macro, o objeto ou pessoa não tem TANTA relevância, e compreender que VOCÊ JÁ É TUDO O QUE PROCURA, o desejo sobre  objetos e pessoas naturalmente enfraquece, sem você fazer nenhuma força para renegá-los.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

MOVIMENTO SIMPLICIDADE VOLUNTÁRIA


 
"Não podemos forçar a simplicidade, mas podemos convidá-la, encontrando tanta riqueza quanto possível nas poucas coisas que temos à mão. Simplicidade não significa escassez mas sim um certo tipo de riqueza, a plenitude que surge quando deixamos de encher o mundo com coisas." ~ Thomas Moore

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É a vergonha que leva as pessoas às compras. E o consumismo desestrutura a família. Eis as opiniões da fundadora do movimento pela vida simples.
Vicki Robin costuma se comparar a uma missionária que viaja pelo mundo aplicando vacinas. Uma das fundadoras do movimento Simplicidade Voluntária, a escritora americana prega a abstinência do luxo, o respeito ao meio ambiente e considera que o grande mal do planeta é o consumismo. Chamada pelo jornal The New York Times de ‘profeta dos enxugadores do consumo’.Em suas palestras, tenta ensinar os ouvintes a não buscar a felicidade no shopping, a pensar duas vezes para abrir a carteira e a fazer um exercício antes de comprar qualquer coisa: calcular quantas horas de trabalho foram necessárias para ganhar o dinheiro que se pretende gastar.
Por que se consome tanto hoje em dia?
Vicki Robin
 – Porque a cultura do consumismo vende a vergonha. Se a propaganda puder envergonhar alguém, terá um consumidor em potencial. As pessoas se envergonham de não ter algo. E correm às compras para cobrir essa vergonha imediatamente. Dessa forma, nossa cultura vende vergonha e sentimento de inferioridade. E ninguém quer ser inferior aos outros.
Como isso acontece?
Vicki
 – As propagandas passam a idéia de que você é infeliz, gorda e feia. Ao comprar determinado produto, porém, poderá ser feliz, jovem, magra. E com namorado. Sutilmente, dizem que podem melhorar sua vida. Além disso, a cultura do consumo corta a ligação com a família. Quem tem amigos não consome tanto. Quando se tem família, tudo acontece ao redor dela. Longe de ambos, é preciso pagar por tudo. O consumismo cresce quando essas ligações são rompidas. O consumismo nos ensina que o mundo é morto, sem vida. Ele faz você se sentir sozinho. Por isso, tento reconectar as pessoas entre si e com seu mundo interior.
No livro Seu Dinheiro ou Sua Vida, a senhora ensina a calcular o salário real. Como se faz isso?
Vicki
 – Vamos pensar em alguém que ganha R$ 20 por hora. Ele paga impostos e gasta com transporte, alimentação e roupas para trabalhar. Na verdade, então, ganha cerca de R$ 10. Além disso, não trabalha apenas as oito horas no escritório. Com o trânsito de São Paulo, arrisco dizer que as pessoas devem gastar duas horas por dia para ir e voltar. 
E outras tantas se preparando para o trabalho – sempre resta um relatório para ler em casa. Então, não são mais R$ 10, mas apenas uns R$ 5. Quando você se dá conta do tempo que as coisas exigem, vê que uma blusa não custa R$ 75, mas sim 15 horas de seu trabalho. Se pensar assim, comprará menos. A cura para essa loucura do consumismo está na consciência. Não é para deixar de comprar. É deixar de buscar a felicidade nas compras. Não é uma maneira de dizer que o consumo é ruim e que você não deve praticá-lo. A questão é despertar desse pesadelo chamado consumismo.
O que os leitores do livro relatam?
Vicki
 – As pessoas que seguem os passos ensinados diminuem seus gastos em cerca de 20%. Elas sentem que têm o controle de sua vida e são inteligentes. Às vezes, ficam orgulhosas por haver despertado isso também nos outros. É importante saber que as blusas ou cadeiras que compramos consomem parte da energia vital da Terra. Não usamos apenas os recursos renováveis, mas também arrancamos mais árvores do que a floresta tem capacidade de repor.
As pessoas são mais felizes se compram mais?
Vicki
 – É o que chamamos de curva da felicidade. Quando você compra o que é necessário para sobreviver, há muita alegria em relação ao valor gasto. Quando é por conforto, a alegria é menor. Depois de certo ponto, comprar não dá mais felicidade. Tudo será lixo – coisas que você compra, mas que não lhe dão nada. Pode ser até mesmo uma casa.
Existe uma receita para viver com simplicidade?
Vicki
 – É uma vida com intenções, na qual a pessoa pensa em seus valores e no que é importante. É uma maneira de refletir sobre o que está acontecendo. Quem sonha muito não está refletindo. Se refletimos, podemos nos distanciar dos assuntos e ponderar melhor. Depois, voltamos ao curso normal da vida com mais consciência. Muitas vezes, numa sociedade consumista, as pessoas se dão conta de que têm muito, consomem muito, fazem tudo muito rápido e não têm horas suficientes para fazer o que realmente querem. É a doença do muito. O consumismo nos distrai e enche todas as horas do dia. Quando estamos cansados, não temos tempo sequer para pensar no que realmente queremos. Vida simples é viver com o suficiente, o essencial.
É possível levar uma vida simples nas grandes cidades?
Vicki
 – Sim, na cidade ou no campo, sem que seja preciso plantar suas verduras. Na cidade estamos mais abertos ao consumismo. No entanto, podemos fazer mais coisas com os amigos, o que no campo é difícil. E também temos a opção de não consumir indo à biblioteca em vez de comprar um livro.
As crianças de hoje começam a consumir muito cedo. Existe um modo de minimizar isso?
Vicki -
 A indústria de propaganda mira conscientemente as crianças. Sabe que, se as ensinam cedo, a vida inteira consumirão.As agências de propaganda sabem detalhes como o tom de vermelho de que uma criança de 2 anos gosta. As crianças ficam muito tempo em frente à televisão. Nos primeiros cinco anos, aprendem a realidade por meio da TV. Por isso é muito difícil uma pessoa, ao chegar aos 40, se dar conta de que algo que ela entende desde a infância como verdade não é verdade.
As pessoas nunca se dão conta disso? 
Vicki
 – O ser humano só descobre o que quer ao ver o que o outro tem. Nessa cultura da propaganda, vemos muita gente com muito mais que nós. O estilo de vida dos ricos está nas revistas. Disso surgem os desejos. Se você não pode ter algo, fica deprimido. Compra para não se sentir pior que o outro. É o que acontece com os negros americanos, que compram para ser como os brancos. Nos Estados Unidos, somos tão racistas que os negros se endividam para comprar as mesmas coisas que os brancos. Com isso, criam dívidas enormes.
Muitas pessoas dizem que têm o direito de gastar o que querem porque ganham seu dinheiro. O que dizer a elas?
Vicki
 – É a lei do consumismo. Se tenho dinheiro, posso comprar o que quero sem pensar. É muito difícil confrontar essas pessoas, pois a cultura nos diz que isso é correto. 
Por VICKI ROBIN em entrevista a Revista Época
FONTE : http://www.avidaeumaviagem.com.br/blog/?p=688

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Como simplificar quando você ama suas coisas.

Imagem: thadz, creative common

 Tudo depende de você ter as coisas, ou delas terem você” – Robert A. Cook.

Nota do editor: este artigo é de Barrie Davenport, de Live Bold and Bloom.


Simplicidade. Eis uma antiga e adorável tradição espiritual que tem ganhado popularidade recentemente. Enquanto tentamos sobreviver à nossa economia errática e à ansiedade financeira decorrente, é natural buscar um estilo de vida menos arriscado – parar de gastar, reencontrar o equilíbrio, viver com leveza.

Se você lê regularmente o Zen Habits, provavelmente está interessado na ideia de simplicidade. De fato, provavelmente você já se desfez de diversas coisas materiais e vive uma vida muito simples. Pessoas que adotam esse nível de simplicidade, especialmente na terra do consumismo, são incrivelmente inspiradoras e fascinantes.

Mas sejamos realistas. A despeito de abraçarem o conceito de simplicidade, a maioria das pessoas realmente adora suas coisas e adora adquirir mais coisas. 

Assim como nossas atitudes acerca de uma dieta saudável, nossos sentimentos acerca de coisas materiais são complicados. Sabemos o que é bom para nós, mas simplesmente não queremos desistir do que gostamos.

 Nossas coisas fazem-nos sentir bem.
É possível viver uma vida simples e ainda assim amar as coisas? O quanto o desapego material realmente conta quando o assunto é simplificar?

Viver com simplicidade e desapegar-se das coisas materiais fará você sentir-se mais feliz. Há pesquisas reais e montes de histórias que confirmam isso. Mas é possível que algumas coisas materiais possam aumentar nossa felicidade, senso de contentamento e prazer na vida? Se sim, como saber quais coisas são boas e quais são ruins?

Talvez o fator decisivo seja a motivação. As coisas que você tem ou deseja ter sustentam seu ego ou elevam sua alma? Algumas coisas materiais podem dar a você um senso de calor, aconchego, beleza, memórias carinhosas ou conforto. Outras oferecem apenas aquela energia fugaz da compra.

Se você refletir com atenção sobre suas ideias e ações a respeito das coisas materiais, poderá criar um suave equilíbrio entre amar as coisas e viver com simplicidade.

Aqui vão alguns pensamentos que podem ser úteis.

1. Dê uma olhada na sua casa agora.
Vá de um cômodo a outro. Você vê coisas que nunca usa e com as quais não se importa de verdade? Por que não doá-las ou vendê-las? Limpe física e psiquicamente seu espaço removendo as “folhas mortas” ao seu redor. Alguém mais pode realmente precisar dessas coisas.

2. Examine por que você está se apegando a algo.
É uma coisa verdadeiramente útil ou significativa, ou alimenta seu ego de alguma maneira? Você a mantém só para impressionar ou outros, para sentir-se melhor ou mais importante?

3. Observe em que você gasta seu tempo.
Você tem coisas destinadas a hobbies que nunca exerce? Tem uma cozinha cheia de equipamentos, mas raramente cozinha? Se você pensa de verdade que retomará o hobby ou atividade, encaixote as coisas relacionadas e coloque-as fora do caminho até que o faça. Seja realista sobre quanto tempo você tem para usar suas coisas supérfluas.

4. Você tem uma carreira focada em coisas?
Decoradores, negociantes de carros, comerciantes e outras pessoas envolvidas em criar, comprar, vender e divulgar produtos podem ter dificuldades em desapegar-se de coisas materiais porque estão sempre cercadas pelo que há de melhor e mais novo.

 Há beleza e arte em muitas coisas, mas considere o seguinte: você não precisa possui-las todas para apreciá-las. Eckhart Tolle certa vez sugeriu a Oprah Winfrey que ela não comprasse tudo que gostasse ou quisesse – simplesmente apreciasse aquilo naquele instante, na loja.

5. Valorize experiências em vez de coisas.
Em geral, aquisições de experiência fornecem um prazer muito maior que aquisições materiais. A lembrança das experiências melhora com o tempo, mas aquisições materiais dificilmente podem ser pensadas em termos abstratos. 

Experiências também encorajam relacionamentos sociais, levando a uma felicidade duradoura. Se você está morrendo de vontade de gastar, gaste numa ótima experiência com alguém de quem goste.

6. Quando pensar nas suas coisas ou quando quiser comprar algo novo, considere estes parâmetros:
  • Isso traz beleza à vida e aquece a alma.
  • Isso contribui para uma paixão ou hobby.
  • Isso ajuda a aproximar família e amigos de uma forma criativa e significativa.
  • Isso educa e esclarece.
  • Isso torna a vida profundamente mais simples para que você possa correr atrás de coisas mais importantes.
  • Isso ajuda alguém que está doente ou incapacitado.
  • Isso é útil e necessário para o dia-a-dia.
  • Isso é parte de uma tradição importante ou é uma recordação de um evento especial.
7. Você saberá que está comprando à toa se:
  • Compra por impulso.
  • Compra para impressionar os outros.
  • Compra porque acha que merece.
  • Compra quando não pode gastar.
  • Compra apenas para substituir algo que ainda funciona ou está bom.
  • Compra porque alguém tem e você quer ter também.
  • Compra porque a propaganda seduziu você.
  • Compra porque está morrendo de tédio.
  • Compra porque comprar acalma você.
É possível equilibrar uma vida mais simples com a aquisição de coisas materiais. Você pode aproveitar as coisas sem viver como um esteta. O ponto de equilíbrio é uma questão de preferência pessoal. 

Perceba, entretanto, que há um ponto em que acúmulo e materialismo minam o prazer e a satisfação autênticos na vida.
Faça uma limpeza cuidadosa no seu estilo de vida atual e nos seus pertences e analise seriamente suas compras futuras. 

Examine com atenção suas motivações para manter ou comprar coisas. Uma vez que você permita que as coisas sirvam à sua alma, em vez de deixar-se escravizar por suas coisas, sua vida se desenvolverá segundo uma harmonia inteligente entre o que você tem e quem você é.


Fonte: http://zenhabits.net/
Tradução de Lu Monte

terça-feira, 26 de abril de 2011

Oráculos da Verdade



O filósofo alemão Emmanuel Kant não anda muito em moda. Sobretudo por ter adotado em suas obras uma linguagem hermética. Porém, num de seus brilhantes textos – “O que é o Iluminismo?” – sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, se torna cada vez mais generalizado: as pessoas renunciam a pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade”: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.
Esses os guardiões da verdade que, bondosamente, velam para não nos permitir incorrer em equívocos. Graças a seus alertas sabemos que as mortes de terroristas nas prisões made in USA de Bagdá e Guantánamo são apenas acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de prolongada greve de fome.
São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos EUA no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias com crianças e mulheres, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, ostenta a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária, enquanto o latifúndio, em nome do agronegócio, invade a Amazônia, desmata a floresta e utiliza mão de obra escrava.
É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, “gado doméstico”, arrebanhamento, de modo que todos aceitem, resignadamente, permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote etc. Todos clamam “Não pensem!” “Obedeçam!” “Paguem!” “Creiam!” O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário que, hoje, ordena ao rebanho de consumidores: “Não pensem! Gastem!

Tocqueville, autor de Da democracia na América (1840), opina em seu famoso livro que o tipo de despotismo que as nações democráticas deveriam temer é exatamente sua redução a “um rebanho de animais tímidos e industriosos”, livres da “preocupação de pensar”.

O velho Marx, que anda em moda por ter previsto as crises cíclicas do capitalismo, assinalou que elas decorreriam da superprodução, o que de fato ocorreu em 1929. Mas não foi o que vimos em 2008, cujos reflexos perduram. A crise atual não derivou da maximização da exploração do trabalhador, e sim da maximização da exploração dos consumidores. “Consumo, logo existo”, eis o princípio da lógica pós-moderna.

Para transformar o mundo num grande mercado, as técnicas do marketing contaram com a valiosa contribuição de Edward Bernays, duplo sobrinho estadunidense de Freud. Anna, irmã do criador da psicanálise e mãe de Bernays, era casada com o irmão de Martha, mulher de Freud. Os livros deste foram publicados pelo sobrinho nos EUA. Já em 1923, em Crystallizing Public Opinion, Bernays argumenta que governos e anunciantes são capazes de “arregimentar a mente (do público) como os militares o fazem com o corpo”.

Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de homogeneizar seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo através de uma propaganda libidinal que nele imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, tanto maior a maximização do lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.

Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.

A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurados por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol.

A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores.

Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Esta a verdade proclamada pelos oráculos do sistema.

Frei Betto  (escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.)
http://www.freibetto.org

domingo, 24 de abril de 2011

O que nos faz feliz?



[...] "Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. 'Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático', respondo. 


Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”. [...]

Palavras de Frei Beto

sábado, 23 de abril de 2011

Oráculos da Verdade


O filósofo alemão Emmanuel Kant não anda muito em moda. Sobretudo por ter adotado em suas obras uma linguagem hermética. Porém, num de seus brilhantes textos – “O que é o Iluminismo?” – sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, se torna cada vez mais generalizado: as pessoas renunciam a pensar por si mesmas. 

Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade”: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.


Esses os guardiões da verdade que, bondosamente, velam para não nos permitir incorrer em equívocos. Graças a seus alertas sabemos que as mortes de terroristas nas prisões made in USA de Bagdá e Guantánamo são apenas acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de prolongada greve de fome.