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terça-feira, 29 de maio de 2012

PAIDEIA III

Platão



A posição do helenismo na educação humana deriva da sua percepção das leis profundas que regem a natureza humana e das quais derivam as normas que regem a vida dos indivíduos e a estrutura da sociedade. A mais alta obra de arte que o povo grego idealizou foi a criação do homem vivo, concebendo assim, a educação como um processo de construção consciente.


É neste sentido que Platão usou, metaforicamente, pela primeira vez, a palavra formação, aplicando - a à ação educadora. Sendo assim, um povo antropoplástico e antropocêntrico, seu princípio espiritual é o humanismo, significando a educação humana de acordo com o seu autêntico ser.


Esta Paideia aspira a um homem idealizado, convergindo para ela educadores, poetas, artistas e filósofos. Entretanto, este ideal não é uma forma abstrata, vazia, mas uma forma viva que se desenvolve no âmago de um povo e persiste através de mudanças históricas.


Os verdadeiros representantes da Paideia grega não são os artistas mudos - escultores, pintores, arquitetos, - mas os poetas e os músicos, os filósofos, os retóricos e os oradores ou seja, os homens de estado. Para os gregos, o legislador tem uma missão educadora bem próxima do músico e do poeta, são escultores que formam o homem vivo.


Durante o século V a.c., a medicina grega teve sua fase de maior desenvolvimento. Foi nessa medicina científica do século precedente que os sofistas e os filósofos como Platão e Aristóteles foram buscar seu conceito de natureza humana, significando uma totalidade, corpo e alma ou seja, natureza física, moral e social do homem. O século IV A. C. foi considerado  a época clássica da istória da Paideia. Neste século desenvolveram-se os  grandes sistemas de Paideia cujos expoentes foramPlatão, xenofonte, Isócrates, Demóstenes e Aristóteles. Nesta fase é a prosa que manifesta a atividade criadora.


Esta nova forma de literatura éexpressão de grandes e influentes escolas de Filosofia, ciência ou retórica, de movimentos políticos e éticos em que se concentram as aspirações de uma minoria consciente.


A vida intelectual neste século se desenvolve de acordo com um programa e visando um objetivo.


A Paideia é o fio condutor que dá unidade à filosofia, à ciência, à retórica, bem como aos representantes das atividades práticas como a economia, a guerra, a caça e as ciências especiais como a matemática, a medicina e as artes.


A Paidéia no sentido Socrático, converte-se na aspiração de uma ordenação filosófica consciente da vida Para este filósofo, a verdadeira essência da educação é dar ao homem condições para alcançar o fim autêntico de sua vida, o conhecimento do bem cuja tese é:


A virtude é o conhecimento dos verdadeiros valores e deve constituir a pedra angular da educação.


Com Platão, a história da Paideia passa a ser encarada como a morfologia genética das relações entre o homem e a "polis". Este é o fundo filosófico no qual se projeta a compreensão de sua obra. O sistema filosófico de Platão é uma Paideia que aspira a resolver, com a mais vasta ambição, o problema da educação do homem e apresenta como forma suprema de cultura, a filosofia e o conhecimento.


A sua obra de educador está animada do espírito educativo da socrática, que se não contenta em contemplar a essência das coisas mas quer criar o bem. Seus escritos culminaram em dois sistemas educacionais: "A República" e "As Leis".


A Paideia que tem início com Sócrates, se concretiza em Platão na busca do centro divino. Para Platão, o sintoma infalível da má formação de um povo são a existência de tribunais de justiça e de estabelecimentos de saúde.O desenvolvimento destas duas instituições é tudo menos o orgulho de uma civilização. Portanto, o objetivo do educador é fazer com que se tornem supérfluas dentro do Estado.


Platão denomina a Medicina de pedagogia das doenças. Para ele, o tratamento adequado apenas facilita a cura que deve ser feita pela natureza saudável.


A ficção platônica do "Estado Ideal" e do Homem Ideal, tem caráter paradigmático - é um modelo ético.


Em Platão a meta suprema da Paideia é o conhecimento da ideia do bem, a transformação e a purificação da alma para alcançar o Ser Supremo.


A política e a ética de Platão estáo decalcadas sobre a ci~encia médica grega, visto que o objeto da política tal com o da Medicina é a natureza humana (physis)


Embora a história não tenha dado tempo a Platão para a consecução do seu objetivo, ele e seus pares, acabaram por serem os criadores da filosofia e da ciência ocidental e a vanguarda da religião universal, o cristianismo.


Foi sob esta égide que a Grécia conquistou espiritualmente o mundo. A filosofia, a ciência e a retórica gregas foram as formas pelas quais se perpetuou o que de verdadeiramente imortal existiu na criação dos gregos. Sua civilização morreu apenas no seu aspecto material da existência mas seu espírito permanece até hoje.


Aqui termino este resumo sobre formação do Povo grego, a qual herdamos alguma coisa através do cristianismo.


Quero ressaltar aqui a parte do pensamento de Platão que me parece muito aplicável aos dias atuais:


"O sintoma infalível da má formação de um povo são a existência de tribunais de justiça e de estabelecimentos de saúde.O desenvolvimento destas duas instituições é tudo menos o orgulho de uma civilização. Portanto, o objetivo do educador é fazer com que se tornem supérfluas dentro do Estado."

Infelizmente, é este o sintoma escancarado da civilização globalizada atual. 


Tem remédio? Não tenho certeza. Mas me parece que poderíamos começar por uma formação excelente para os professores e um salário que lhes proporcionasse uma vida digna. Quem sabe se os jovens discípulos desses novos educadores não teriam capacidade para mudar o estado atual da civilização?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

PAIDÉIA II

http://ocaminhodosanjos.blogspot.com.br/


Civilizações como a do Egito antigo possuem uma estabilidade milenar de sua tradição que varou milênios e entre os romanos a estabilidade das relações sociais e políticas era considerada o valor mais alto. Entretanto, entre os povos antigos, a história daquilo que podemos chamar de cultura começa com os gregos. Este povo é a origem e a fonte espiritual do mundo ocidental, o qual Jaeger denomina de povos helenocêntricos. A Grécia ocupou uma posição revolucionária e solitária na história da educação humana.

Foi criadora de uma Paidéia, formação do homem grego, que conta a história de sua educação. Ela é a própria história da Grécia que não desapareceu porque os gregos a criaram  de uma forma perene. O povo grego talhou seu próprio destino através de uma vontade altíssima de formar um elevado tipo de ser humano.

Neste sentido, a ideia da educação representava para ele o sentido de todo o esforço humano, sendo o fim último da comunidade e individualidade humanas. O termo "Paidéia", na sua origem, aparece no século V a.c. com o significado de "criação dos meninos". Antes do surgimento deste termo e de sua evolução, a palavra apropriada para designar o ideal de formação do indivíduo era "arete" que se faz presente um toda a sua poesia, desde Homero, como nobreza, cavalheirismo.

 Com o tempo, o termo "Paidéia" foi alargando a esfera do seu significado para "Bildung" - formação ou a equivalente latina "cultura". O termo "Paidéia" passa a ter um sentido bastante amplo designando o ser formado e o próprio conte´do da cultura, chegando, ao final, a abarcar o mundo da cultura espiritual. A partir do século IV a.c. este conceito achou a sua cristalização definitiva passando a designar todas as formas e criações espirituais, o tesouro completo de sua tradição.

 Com os sofistas, a Paidéia adquire o significado de uma  teoria consciente da educação, recebendo assim um componente racional. Foi este momento histórico, um estágio da maior importância no desenvolvimento do humanismo, que, com Platão atingiu o seu clímax. A Paidéia como Teoria da Educação abriu caminho a uma verdadeira filosofia política e ética, ao lado e mesmo acima da Ciència da Natureza (primeira manifestação do saber grego).  Os sofistas chamaram de "techne" à sua teoria e arte da educação.

 Por essa época, a Paidéia assumiu como traços fundamentais a educação ética e política. Hoje usamos a palavra cultura numa acepção que a estende a todos os povos da Terra, inclusive os primitivos. Assim, entendemos hoje em dia como cultura as manifestações e formas de vida que caracterizam um povo.

Converteu-se, portanto, a palavra cultura, num conceito antropológico descritivo. Abandonou, assim, o seu antigo significado de um ideal consciente, um valor.

Neste sentido, podemos falar de uma cultura chinesa, hindu, babilônica, hebraica ou egípcia sem que estes povos tenham possuído uma palavra que a designasse de modo consciente, embora esses povos tenham possuído seus sistemas educativos, estes, na sua essência, são algo fundamentalmente distinto do Ideal grego da formação humana.


O povo grego foi quem estabeleceu, pela primeira vez um ideal de cultura como princípio formativo.


Sua importância como educadores deriva de sua nova concepção do lugar do indivíduo na sociedade, dando uma nova valoração ao homem, em contraste absoluto com o das civilizações pré-helênicas, cuja essência não se afasta muito  dos ideais do cristianismo e do ideal de autonomia espiritual que surgiu com o renascimento.

Foram os gregos que elaboraram o conceito de natureza, a sua "phisis" como um todo ordenado em conexão fixa, na qual e pela qual tudo ganhava sentido. Uma concepção sem dúvida orgânica porque nela, as partes são consideradas membros de um todo. Isto deu-lhes a unidade nas manifestações artísticas que deixaram patenteadas.

Ainda continua no próximo post.

Fonte: Paidéia - Werner Jaiger

terça-feira, 22 de maio de 2012

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DE "PAIDEIA" ?

http://www.diariodoengenho.com.br/?p=6791

Hoje em dia o que mais ouço falar é em educação ecológica.
No meu entendimento há muito tempo deixou de existir educação, restou somente a instrução e assim mesmo voltada exclusivamente para a tecnologia. Os pais não tem mais tempo para educar, as babás não estão preparadas para isto. E então, para quem ficou este encargo?

Quando eu tinha meus sete a oito anos quem cuidou de desenvolver a minha imaginação foram as histórias contadas por minha Vó Finha.  Todas as tardes enquanto ela fazia renda de bilros ia colorindo a minha imaginação com seus contos de fadas que sabia de cor. Ainda hoje tenho saudade daqueles momentos que foram tão importantes para mim.

Aí chegou a pré adolescência com seus romances sentimentais escolhidos criteriosamente pela bibliotecária da escola secundária criada, fundada e dirigida pelo Padre João Gomes da Costa (em Itabaiana-Pb). Depois continuei por minha conta e risco, lendo tudo que me caía nas mãos.

Mas o objetivo deste post não é falar sobre minha formação de mocinha nascida durante a segunda guerra mundial.

E então, qual seria este objetivo?
É que já fui professora ou instrutora ou qualquer coisa que o valha e o que é pior ou melhor, não sei dizer, é que caiu em minhas mãos lecionar a disciplina de ética profissional. Me deparei, ano após ano com alunos desmotivados e eu sem saber o que fazer com eles.


Procurei descobrir o que faziam os professores de filosofia e me deparei com um novo universo. Sim, porque na época em que iniciei meus estudos acadêmicos foi aquela época tenebrosa onde se decidiu que as humanidades não tinham qualquer valor pois não nos forneciam a  base que necessitávamos para fazer uma carreira considerada científico/técnica, e o que o Brasil precisava era de técnicos e não de filósofos ou revolucionários.

 E, aliás, pouca gente se importou com as mudanças introduzidas nos currículos escolares. Os alunos ou s sua maioria estavam preocupados com o mercado de trabalho, com as profissões mais rendosas e onde existiam mais oportunidades de emprego. Não sei se hoje o panorama está diferente, estou afastada da sala de aulas e também tenho outros interesses agora. Mas não me parece que tenha mudado muita coisa.

Hoje se fala à exaustão em ECOLOGIA, AUTOCONHECIMENTO, ESOTERISMO, NOVO MUNDO, NOVA TERRA, NOVA HUMANIDADE.  E então? Voltamos ao ponto de partida. Como transformar o mundo se não podemos transformar os humanos?

Na minha época de professora, conheci alguns filósofos, porque resolvi estudar Filosofia e Antropologia por me achar deficiente nesta área do conhecimento e um dos autores que mais me impressionou foi WERNER JAEGER,  que escreveu um livro chamado PAIDEIA. e, são dele as seguintes palavras



Antes de tudo, a educação não é uma propriedade individual, mas pertence por essência à comunidade.

Werner Jaeger - ”Paideia”


"O homem consegue conservar e propagar a sua forma de existência social e espiritual através das forças com as quais foi possível criá-las, ou seja, através da vontade consciente e da razão.
Uma educação consciente potencialmente até poderia mudar a natureza física do homem e suas qualidades enquanto seu espírito pode conduzi-lo à descoberta de si mesmo, criando oportunidade para o surgimento de formas melhores de vida humana. Esta organização física e espiritual que busca elevar as capacidades humanas para níveis superiores é o que chamamos EDUCAÇÃO.
A educação pertence, por sua essência, à comunidade, cujo caráter imprime-se em cada indivíduo. É, assim, uma consequência da consciência comunitária, com relação a uma ordenação que a rege.
Por outro lado, o desenvolvimento social está condicionado à transformação dos valores  que regem a vida na comunidade humana e a história da educação está diretamente relacionada à vigência e/ou transformação desses valores."
 Devo parar por aqui e continuarei a discutir este tema no próximo post, para não me alongar demais pois o assunto não permite um tratamento superficial. Assim teremos PAIDEA II e mais capítulos se houver necessidade para um melhor entendimento do tema."



"De maneira contundente, o processo de formação deve avançar no fortalecimento de valores fundamentais, a constituírem-se no ideal de justiça social, no desejo de exercício da cidadania, na tolerância às diferenças, no espírito humanitário de respeito e unidade de princípios e crenças, na ação engajada de participação nos rumos políticos da nação e civilização, no amor entre os homens e na defesa da vida e da dignidade. Tal dinâmica formativa pode, não obstante, alicerçar-se talvez em cinco critérios essenciais: primeiro, o critério da justiça, em seguida, o da verdade, depois, o critério da compaixão, seguido pelo critério da solidariedade e, por fim, o critério da tolerância. É preciso, sobretudo, conceber o processo educacional como uma Paideia, a articular a formação do aluno de maneira complexa e integral, favorecendo com que suas potencialidades aflorem e se tornem realidade. É imprescindível e urgente que a dinâmica educativa envolva toda a sociedade, em um vasto movimento formativo, visando cultivar nos jovens alunos – a exemplo da Paideia grega – os princípios basilares e o rico legado da civilização, suplantando, por esta via, toda perspectiva de decadência e crise."  Palavras de Adelino Francisco de Oliveira em  
http://www.diariodoengenho.com.br/?p=6791