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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

OTIMISMO E FELICIDADE



A ética não pode ser estimulada com eficiência através de mera propaganda. Os comportamentos sutilmente desonestos são sintomas de um processo psicológico que deve ser compreendido.  A atitude egoísta diante da vida - frequentemente disfarçada sob aparências “espirituais” - é uma forma de cegueira desnecessária.

Na ausência de uma visão correta de futuro, o comportamento humano é dominado por uma busca de satisfações de curto prazo.  Problemas como crise ética, apego a rotinas, dispersão mental ou uma luta exagerada pelo poder estão associados à ausência de uma percepção adequada do futuro. Eles surgem porque não há uma compreensão do mistério do Tempo e do Carma.

A teosofia ensina que a vida pode e deve ser renovada a todo momento, individual e coletivamente. O renascimento interior é sempre possível. Quando o indivíduo e a comunidade veem as causas do sofrimento, a compreensão substitui a dor. A fonte central das aflições é a ignorância. Um projeto de vida correto é inseparável de uma clara percepção do tempo cíclico de longo prazo, incluindo o processo da reencarnação.

O passado, o presente e o futuro devem ser reconhecidos como aspectos diferentes de uma só Duração Ilimitada.  O tempo é eterno e indivisível. Quando isso é percebido, a lei do carma pode ser compreendida e a doença do egoísmo encontra a sua cura no interior da alma. O aprendiz deve erguer-se acima das trivialidades pessoais. Então a sua visão de futuro se torna estimulante outra vez,  o propósito da vida fica claro, as suas potencialidades positivas se tornam visíveis, o  egoísmo não faz sentido, e o desânimo e a dispersão mental parecem não ter existido jamais.  

Otimismo e Felicidade

A questão do otimismo em teosofia é fundamental, porque o significado da palavra “otimismo” é  confiança no futuro,  e o movimento teosófico existe, precisamente, para preparar um futuro melhor.

Toda verdadeira filosofia oferece a seus estudantes um caminho para a felicidade através do conhecimento do universo e do autoconhecimento. A teosofia não é uma exceção, e a sua visão de mundo é prática. O otimismo teosófico surge quando se compreende que a felicidade interior é um resultado natural do ato de viver corretamente.

Aquele que alcança um real conhecimento da lei da vida tem motivos sólidos para confiar no futuro, porque aprende a plantar o que deseja colher.  Um antigo ditado recomenda:

“Plante uma ação, e colherá um hábito;
Plante um hábito, e colherá um caráter;
Plante um caráter, e colherá um destino.” [1]

O Caminho do Nirvana

O nobre óctuplo caminho ensinado por Gautama Buddha é o caminho para a felicidade ou nirvana. A teosofia só pode ser descrita como um caminho de sacrifício do ponto de vista do eu inferior, cujo mundo é ilusório.

O sofrimento é parte da vida porque a vida implica ilusão. Dukkha, dor ou aflição, é a primeira nobre verdade do Budismo. Ela deve ser vista logo no início, porque a sua correta compreensão é o ponto de partida no Caminho da bem-aventurança.

A filosofia esotérica não ensina apenas que para cada dor há uma lição, e frequentemente mais de uma. Ela também afirma que o aprendizado pode ser feito de modo consciente. Para viver com os olhos abertos, basta buscar sinceramente pelas Causas do sofrimento. No verdadeiro otimismo não há uma idealização emocional. A confiança no futuro requer atenção.  A vigilância é o preço a pagar pelo discernimento, e o discernimento é a base da sabedoria e da felicidade.

Quando conhecemos o modo como a Vida funciona, percebemos que é possível confiar nela. O otimismo ensina a confiança em si mesmo e permite ao indivíduo preservar a sua felicidade interior apesar dos desafios.   

Nenhuma dor é mais intensa que a lição ensinada por ela. A aflição humana não pode superar a bênção que a compensará em seu devido tempo.  Um Mestre de Sabedoria escreveu:
                                  
“A natureza tem um antídoto para cada veneno, e suas leis possuem uma recompensa para cada sofrimento. A borboleta devorada pelo pássaro se torna aquele pássaro, e o pequeno pássaro morto por um animal alcança uma forma mais elevada. Essa é a lei cega da necessidade e da eterna adequação das coisas...” [2]

É verdade que o otimismo filosófico parece excessivamente severo para as mentes superficiais. Sendo profundo, ele não está preso ao plano das aparências. A confiança transcendente no futuro é uma fonte essencial daquela visão da vida que sustenta, por exemplo, o autossacrifício de longo prazo. É preciso ter um verdadeiro otimismo para dedicar sua existência a um ideal elevado, deixando de lado o apego ao conforto pessoal. E deve-se levar em conta que a verdadeira teosofia não é um anestésico. Ela elimina gradualmente a causa, e não apenas os sintomas, da dor humana.

Uma fonte decisiva de otimismo está na relação direta que há entre o indivíduo e o universo como um todo. A sabedoria antiga afirma que cada alma humana possui uma estrela inspiradora no céu, e um clássico teosófico acrescenta:

“Quando tiveres encontrado o começo do caminho, a estrela da tua alma mostrará sua luz; e por esta luz perceberás como é grande a escuridão em que ela brilha. (...) Não fiques assustado nem aterrorizado por esta visão; mantém os teus olhos fixos na pequena luz e ela crescerá. (...) Então tu começarás a compartilhar de um contentamento que traz, de fato, um trabalho terrível e uma profunda tristeza, mas também provoca uma satisfação grande, e cada vez maior.” [3]

Otimismo, em filosofia esotérica, não é alguma esperança ingênua. Ele surge da capacidade de compreender a vida infinita e de manter-se em harmonia com ela independentemente das circunstâncias externas. Todos os seres e situações existem no território da lei universal, e a chave da felicidade está em obter, por mérito próprio, uma ligação consciente com o que é ilimitado. 


NOTAS:

[1] De um artigo intitulado “The Genesis of Evil in Human Life”, assinado por “I” e publicado na revista “Lucifer”, de Londres, edição de janeiro de 1889, pp. 373-378. A palavra “Lúcifer” significa “portador da luz”. É um nome da antiguidade para o planeta Vênus, a “estrela do amanhecer”. Desde a idade média, no entanto, o termo foi distorcido por teólogos desinformados e usado para justificar a tortura e o assassinato de pessoas - em nome de Jesus Cristo - por parte da igreja católica. Felizmente, desde o século 20 a igreja católica já não se atreve mais a matar e torturar pessoas.

[2] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, dois volumes, ver Carta 88, volume II, p. 60.

[3] “Luz no Caminho”, de M. C., tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, 85 páginas. A obra foi publicada em 2014 por The Aquarian Theosophist. Ver pp. 26-27.

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O texto acima corresponde a um capítulo da obra “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline (The Aquarian Theosophist, Portugal, 2013, 255 pp.) Título: “Optimism in Esoteric Philosophy”.


sábado, 11 de abril de 2015

A ARTE DE PASSEAR




Photobucket

Imagem: Photobucket

O Hábito de Caminhar Pela Natureza
Rompe os Muros Invisíveis da Rotina

Carlos Cardoso Aveline


O texto a seguir constitui o capítulo 15

do livro “A Vida Secreta da Natureza”,

de Carlos Cardoso Aveline, terceira edição,
Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007,
156 pp.  ( www.bodigaya.com.br )

Navigare necesse, vivere non necesse”, diziam os antigos navegadores.  E, de fato, na primeira metade do século 21 não pode haver dúvida de que navegar, ou viajar, é necessário. A ciência moderna demonstrou que viajar é viver, porque tudo o que existe flui em um eterno movimento.

O núcleo de cada átomo do universo é como um pequeno sol em torno do qual navegam elétrons em alta velocidade. Nossa galáxia é regida pela lei do movimento. A própria palavra “planeta”, que vem do grego, significa “errante” ou “viajante”.  A terra já foi comparada a uma nave espacial, devido à sua viagem incessante em torno do sol.  Além disso, nosso planeta gira em torno do seu próprio eixo, o que dá origem aos nossos dias e noites.

Parece pouco? O sistema solar também está em peregrinação. Ele viaja à velocidade de 960 km por minuto ou 57.600 quilômetros por hora em direção à estrela Vega, a mais brilhante da constelação de Lira. Felizmente, Vega não está parada. Ela se desloca pelo cosmo numa direção e com uma velocidade que garantem pelo menos uma coisa: ela nunca será alcançada por nós. [1]

A mudança e o movimento - tanto internos como externos -  são, portanto, o estado natural de tudo o que existe. Qualquer imobilidade ou estabilidade são subjetivas e passageiras. Permanentes são a transformação e a harmonização dinâmica das coisas em todo o cosmo. A cada desarmonia, segue-se uma harmonia maior e mais completa.  

Se tudo está em movimento e nada existe fora da dança do universo, não há motivo para que nós queiramos viver permanentemente fechados entre quatro paredes, como se fosse possível existir sem transformar-se. É só quando perdemos o contato com o ritmo natural da vida que o escritório, a fábrica, o apartamento ou a casa passam a funcionar como modernas prisões, ricas em recursos tecnológicos.

Segundo o filósofo Karl Gottlob Schelle, viver continuamente em atmosferas confinadas amolece o espírito das pessoas e enfraquece o seu bom senso.  

“O movimento do corpo não é diretamente uma das condições da vida”, escreve Schelle, “e sua ausência não desencadeia irremediavelmente a morte ... mas ele é, no entanto, uma condição indireta. Ele é indispensável para a saúde do corpo e para o bom funcionamento do organismo.” [2] 

A preservação da força vital passa pela simplicidade voluntária. Basta caminhar regularmente ao ar livre e conviver com o ambiente natural para recuperar e manter a vitalidade. A antiga arte de passear pela natureza rompe os muros invisíveis da rotina e amplia nossos horizontes pessoais.

É verdade que essa arte meditativa nem sempre precisa ser praticada a pé. A bicicleta e o cavalo são alternativas admissíveis, até certo ponto, porque permitem andar em silêncio, em baixa velocidade, em contato com o vento, percebendo a magia da natureza e  participando do mistério da sua paz. 

A arte de viver com sabedoria inclui a necessidade de manter o corpo físico saudável e acostumado ao movimento. Isso nos estimula a tomar duas providências. A primeira é incorporar um pouco de trabalho físico à nossa rotina diária. A segunda é adotar o hábito de meditar caminhando. Passear e contemplar a unidade da vida são duas atividades que podem ser feitas ao mesmo tempo. Quando caminhamos pela natureza com o espírito livre de preocupações, nosso sistema nervoso relaxa, o sangue circula com mais força e vitalidade, o cérebro e o coração têm sua vida renovada. Em todo o organismo, a vitalidade flui melhor. Enquanto isso, podemos contemplar o processo da vida ao nosso redor e perceber mais claramente a nossa identidade profunda com os outros seres. 

Outra questão é saber o que o caminhante carrega consigo durante o passeio. Afinal, cada espírito humano possui uma espécie de bagageiro. Ali vão inúmeras lembranças, idéias, crenças, projetos, e alguns princípios éticos. Nem sempre carregamos bagagens agradáveis em nosso espírito. Há também feridas e cicatrizes da alma guardadas ali. Uma coisa é certa, porém. O bom passeador não aceita angústias e ansiedades como parte da sua bagagem. Enquanto pedala ou caminha, ele esquece as atividades de curto prazo e expande sua consciência. As preocupações vão desaparecendo junto com as outras formas de apego emocional.  Esse processo de relaxamento é ajudado pelas reações bioquímicas que o exercício físico moderado causa naturalmente no corpo humano. O espírito do caminhante se eleva até que um dia ele passa a perceber em todas as coisas o princípio universal do equilíbrio e da harmonia.    

É com esse estado de espírito vasto e sereno que devemos caminhar. Aquele que possui uma mente aberta e um coração puro sabe escutar melhor o som do vento nas folhas das árvores. O aprendiz da sabedoria ouve o cântico dos pássaros e aprecia o nascer do sol sem pressa ou apego. Com a mesma tranqüilidade que tem ao observar o vôo de um pássaro no céu, ele vê as ondas de pensamentos e sentimentos no espaço interior da sua própria consciência.

Na verdade, não há uma separação entre o mundo interno e o mundo externo. De um lado, as nossas emoções são influenciadas pelo que está fora de nós. E de outro, sempre julgamos o mundo externo a partir daquilo que carregamos em nossa própria mente e nosso coração. 

Há milhares de anos, diferentes tradições religiosas usam longas peregrinações por terras desconhecidas como meio e método para a libertação dos apegos interiores. É preciso abrir mão tanto dos objetos externos como dos conteúdos internos, para conhecer a liberdade espiritual. O budismo, o hinduísmo e o cristianismo têm disciplinas espirituais que incluem o abandono da vida “normal” - feita de hábitos e compromissos -  para viajar pelo mundo durante um período indefinido de tempo.

As caminhadas curtas também são parte daquilo que, não por acaso, passou a ser chamado de “caminho interior”. O ato de caminhar era um item básico da vida cotidiana e da disciplina espiritual nas escolas de filosofia do mundo antigo. 

Para o cidadão moderno, os passeios a pé, de trinta ou quarenta minutos diários, são exercícios eficientes de meditação e higiene mental.  Alguns alegam que não têm tempo para isso. O argumento é compreensível. O hábito de caminhar exige que se abra mão da rigidez e da imobilidade. É necessário renunciar à rotina da pressa emocional para olhar o mundo de outros pontos de vista, enquanto mantemos o corpo em movimento e observamos o fluxo de nossos sentimentos e pensamentos.  

A prática do desapego está de tal forma associada à arte de passear que, para o escritor chinês Lin Yutang, “o verdadeiro viajante é sempre um vagabundo, com as alegrias, as tentações e o sentido de aventura que tem o vagabundo. Viajar é andar à toa, ou não é viajar”. Segundo Yutang, “a essência da viagem é não ter deveres nem horas marcadas”. É recomendável esquecer os assuntos pessoais.

Ele acrescenta:

“O bom viajante é o que não sabe aonde vai, e o viajante perfeito é o que não sabe de onde vem. Nem sabe seu nome e sobrenome. (...) É provável que esse viajante não tenha um único amigo em terra estranha, mas, como disse uma monja chinesa, ‘não estimar a ninguém em particular é estimar a humanidade em geral’. Não ter um amigo particular é ter a todos por amigos. Esse viajante, que ama a humanidade em geral, mistura-se com ela e vagueia, observando o encanto das gentes e de seus costumes.” [3]

Defensor da espontaneidade, autor de obras marcadas pelo espírito taoísta, Yutang afirma que o equipamento mais necessário para quem passeia “é um talento especial no peito e uma visão especial debaixo das sobrancelhas”.  Ele prossegue:

“O que interessa é saber se o viajante tem coração para sentir e olhos para ver. Se não os tem, suas excursões à montanha são pura perda de tempo e de dinheiro; em compensação, se os tem, poderá conseguir a maior alegria das viagens sem ir sequer às montanhas, mas permanecendo em sua casa e olhando os arredores, e percorrendo os campos para contemplar uma nuvem fugitiva, ou um cachorro, ou uma cerca, ou uma árvore solitária.” [4]  

Em meio à natureza, o caminhante renova a sua vitalidade física enquanto medita. Se meditar é expandir a consciência em direção ao que é imenso, sagrado e muito maior que ela própria, então é possível haver meditações inconscientes e involuntárias. E é isso que ocorre quando caminhamos. O convívio com plantas e animais nos ensina que a inteligência universal está por toda parte. Há uma inteligência nas orquídeas. Os pássaros têm sua linguagem. O vento sugere coisas. As árvores são seres evoluídos. Para o escritor Maurice Maeterlinck, cada planta que encontramos pelo caminho é um ser dotado de inteligência:

“Não é somente na semente ou na flor, mas em toda a planta, caule, folhas e raízes, que se descobre, se quisermos inclinar-nos por um instante sobre seu humilde trabalho,  numerosos sinais de uma inteligência perspicaz. Lembre-se dos magníficos esforços em direção à luz feitos por galhos contrariados, ou a luta criativa e valente das árvores em perigo.”

E Maeterlinck narra o drama de uma grande árvore situada à beira de um precipício, cuja pedra de apoio caíra, mas que se sustentava miraculosamente lançando novas raízes ao solo para evitar o pior. Espetáculos como esse são relativamente comuns nas margens dos rios atacados de erosão. [5]

Depois de discutir a questão da inteligência dos vegetais e dos insetos, Maeterlinck aborda em poucas palavras um tema central da filosofia esotérica:

“Mas que pouca importância tem, no fundo, a questão da inteligência pessoal das flores, dos insetos ou dos pássaros! Que se diga, a propósito da orquídea como da abelha, que é a Natureza e não a planta ou a mosca que calcula, combina, adorna, inventa e raciocina. Que interesse pode ter para nós essa distinção?”

Na verdade - acrescenta Maeterlinck - também os conhecimentos humanos fazem parte da natureza. Nossas pequenas inteligências pessoais são parcelas de um conjunto maior: “Todos os nossos motivos arquitetônicos e musicais, todas nossas harmonias de cor e de luz, etc., são tomadas diretamente da Natureza”. [6] 

Sabendo disso, o bom passeador caminha ou pedala em harmonia com o cosmo, tanto na avenida de uma grande cidade como na beira do mar ou na trilha de um bosque.  Ele percebe a unidade da vida e se reconhece como um pequeno ser participante da grande inteligência universal. Por esse motivo, o caminhante sente que nada tem a temer do passado, do presente ou do futuro. Ele vê que, no fundo, a paz comanda a vida - não só aqui e agora, mas também em todas as partes, e sempre.  


NOTAS:

[1] O Livro de Ouro do Universo”, de  Ronaldo Rogério de Freitas Mourão,  Ediouro, 2001, 509 pp., ver p.136.

[2] “A Arte de Passear”, de Karl Gottlob Schelle,  Ed. Martins Fontes, SP, 2001, pp. 16-17.

[3] A Importância de Viver”, de Lin Yutang, Ed. Globo, Porto Alegre, quarta edição, 1959,  tradução de Mário Quintana, 360 pp., ver p. 267.

[4] “A Importância de Viver”, obra citada, p. 269.

[5] “La Inteligencia de las Flores”, de Maurice Maeterlinck, Ediciones Nuevo Siglo, Buenos Aires, 1997, 126 pp., ver pp. 13-14.

[6] “La Inteligencia de las Flores”, obra citada, ver pp. 59-60.

Fonte:
 http://www.filosofiaesoterica.com/a-arte-de-passear/



quinta-feira, 9 de abril de 2015

DESDE O MEDO PARA A FELICIDADE


         
            Localizando as Fontes da Confiança na Vida
No segundo parágrafo da sua Declaração de Independência de 1776, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e outros membros do Congresso norte-americano mencionam algumas “verdades auto evidentes”. 

A primeira delas é que todos os homens nascem iguais. E, desde um ponto de vista teosófico, cabe explicar: “iguais perante a Lei do Carma”.

A segunda verdade auto evidente é que todos os homens têm alguns direitos inalienáveis:  entre eles o direito à vida, à liberdade, e à busca da felicidade.

Destes “direitos”, o terceiro é essencial para a filosofia teosófica, porque se refere ao melhor uso possível das duas condições anteriores, a Vida e a Liberdade.  

Basta observar os acontecimentos ao nosso redor para perceber que a Busca da Felicidade está presente em todas as formas de vida. Esta meta não é uma exclusividade do ser humano.  Plotino, o neoplatônico, escreveu que as plantas buscam a felicidade.  É fácil compreender que todos os animais compartilham a meta. Sabendo desse fato, os budistas costumam desejar “paz a todos os seres”. O desafio específico a ser enfrentado pelo cidadão moderno é como encontrar individualmente uma felicidade interior durável; e de que modo alcançar uma “paz incondicional”, que não pode ser facilmente perturbada por acontecimentos externos.

A vida ensina que a jornada desde o medo para a felicidade não é fácil, e não é curta. Ela exige coragem. Talvez tenhamos que perguntar-nos: de que temos medo, exatamente? E por que motivo um sentimento de insegurança emerge uma e outra vez em nossas emoções?

As fontes externas de medo só podem entrar em ação na medida em que fontes internas deste sentimento entram em ressonância com elas. Sem uma contrapartida subjetiva, nenhuma ameaça externa e objetiva ou situação difícil pode provocar desconforto psicológico.

Em outras palavras, nosso “eu inferior” nunca tem medo de algo puramente externo.  Ele teme ao mesmo tempo algum impulso interno, algum sentimento ou situação que põe em risco “desde o interior” o seu sentido de segurança e continuidade.

A existência de medo está relacionada aos desejos pessoais e à dependência emocional em relação a coisas, lugares ou pessoas. Temos instintivamente medo de qualquer coisa que ameace nossas esperanças e expectativas; e estas esperanças podem ser subconscientes.

Se adotarmos como premissas noções pouco realistas, como a ideia de que “nunca  envelheceremos” ou de que “nunca morreremos”, o medo surgirá.

Se suprimirmos algum medo específico nas camadas voluntárias da nossa mente, o receio se tornará subconsciente, sem deixar de existir. Ele pode ressurgir mais tarde, sob outras formas. A raiva frequentemente funciona como um disfarce para o medo.

Depois de um processo de preparação subconsciente, o estudante de filosofia se torna capaz de confrontar o seu medo central - sempre uma forma de ignorância - e libertar-se dele.  O que vale para o sentimento de insegurança vale também para outras emoções negativas.  

Parece haver um “eixo simétrico”, uma “linha de equilíbrio” entre as fontes internas e externas de ansiedade, bem-estar, autoconfiança e outras sensações psicológicas.

Os estados individuais de consciência acontecem em paralelo com as circunstâncias externas, e são relativamente independentes delas.  Alguém pode estar internamente feliz enquanto enfrenta uma situação externamente difícil. Pode sentir tristeza e desânimo enquanto no mundo objetivo tudo parece OK.  O bem-estar interno depende da presença maior ou menor do eu superior nos acontecimentos da vida. Não pode haver medo psicológico na presença de Atma e Buddhi, os princípios superiores da consciência. Tudo é bom e belo enquanto a alma imortal está diretamente engajada em nossa atividade. Quando o foco da consciência se estabelece no templo do nosso ser espiritual, os apegos desaparecem e podemos ter uma completa confiança na Vida. Isso produz o auto esquecimento da bem-aventurança. 

A ausência de egoísmo é a roupagem externa  de um novo centro da consciência: a percepção interior da nossa verdadeira identidade. “Esquecemos” do nosso ser estreito e pequeno porque enxergamos o verdadeiro eu. Uma lei geral na Natureza estabelece que  todos os seres deixam de lado as formas pequenas de bem-estar, cada vez que  alcançam uma felicidade grande e durável.  Na transição, o eu inferior pode ainda sofrer, mas o principal foco de consciência já não estará limitado à dor pessoal nem será enganado por ela.

Como Damos Significados à Vida

Em nossas vidas diárias, o mundo interno e o mundo externo trocam “mensagens” e energias o tempo todo.

É o modo como você conecta os fatores internos e externos em sua consciência que faz a diferença. A maneira como você atribui significado a fatos ou objetos, no contexto da sua “visão da vida”, faz de você uma pessoa mais feliz ou menos feliz no processo da encarnação atual. Antahkarana é a ponte  metafórica entre consciência celeste e consciência terrestre. É uma versão individualizada da escada de Jacó (Gênesis 28: 11-13), e ocupa um lugar central na caminhada para a sabedoria e o contentamento.     

voz interior, que não necessita de palavras, é a voz do silêncio, e  ela fala em nossa consciência através de Antahkarana.

Ouvir este som sem som produz uma felicidade que nada pode tirar de nós. Então um contentamento incondicional de longo prazo e uma confiança ilimitada na vida passam a estar conosco para sempre, mesmo quando enfrentamos obstáculos e dificuldades aparentemente grandes. 
Autor: Carlos Cardoso Aveline 
Fonte: http://www.vislumbresdaoutramargem.com/