A verdadeira religião, a espiritualidade autêntica, tem como principal objetivo libertar o homem, torná-lo forte e não fraco e impotente, torná-lo responsável por si mesmo, sem esperar que a justiça lhe seja entregue de bandeja, mas ele mesmo sendo justo.
Quando existe a atitude errada, além de não eliminarmos a impotência auto-imposta, nós também incentivamos a falsa relgião. Tudo que é falso sempre acarreta uma reação falsa e extremada.
Portanto, vamos descobrir em que recessos sutis, profundamente ocultos da alma nós esperamos que Deus viva por nós, tome decisões por nós, proporcione o que nós poderíamos obter por nós mesmos, desde que decidíssemos nos tornar seres humanos livres e maduros. Com essa atitude oculta de dependência nós ficamos como que aleijados e fazemos da religião uma falsa muleta.
A falsa religião é mais prejudicial para a verdadeira religião do que o total ateismo e materialismo, porque ela cria uma farsa a partir da verdade, da dignidade do ser humano divino e livre, da força divina do homem.
Ela dá argumentos verdadeiros aos anti-religiosos. Desta forma é muito importante nós descobrirmos em que aspectos nós continuamos presos, porque temos medo da independência.
Uma vez que enxergarmos e entendermos, começaremos a mudar, deixaremos de esperar que Deus nos dê o que nós deveríamos e poderíamos ser fortes o suficiente para obter sozinhos. E isso vai nos proporcionar respeito por nós mesmos e segurança.
Enquanto precisarmos depender de uma autoridade mais forte para evitar o esforço e a responsabilidade, não poderemos deixar de sentir desprezo por nós mesmos e assim nos tornarmos mais fracos e mais impotentes.
O verdadeiro resultado da falsa religião por um lado é o desejo inconsciente de permanecer na infância. Por outro, é essa nossa falsa imagem de Deus. Na transição entre a falsa e a verdadeira religião, há uma fase de vazio.
É uma fase realmente difícil. É uma etapa em que nós nos sentimos sozinhos, porque o falso Deus está se desvanecendo e o verdadeiro Deus ainda não se instalou de fato no nosso ser.
Nesta fase é possível que a nossa fé fique abalada. Nós poderemos ter muitas dúvidas sobre a própria existência de Deus. Tudo isso ocorre por causa da eliminaçao da falsa segurança, da fuga, da muleta, que fazem parte da infância espiritual. Como o conceito infantil de Deus de fato não corresponde à realidade, parece, por algum tempo, que Deus não existe.
Mas a medida que desaparece o conceito da falsa religião, com sua imagem de Deus, mesmo enquanto nós estamos num sofrido estado de solidão, começa a surgir uma força interior, muito antes de nós termos consciência dela - desde que, naturalmnte, não nos deixemos abalar por esse estado temporário, mas continuemos trabalhando com renovado esforço.
Na verdadeira religião vamos sentir a ajuda de Deus porque vamos perceber a perfeição do uiverso e suas leis, a força delas, das quais nós somos uma parte integrante, contributiva. Nós vamos ver que somos a força motriz da nossa própria vida. Nós podemos ajudar a nós mesmos se realmente quizermos, se estivermos prontos a sacrificar alguma coisa (pagar o preço).
Vamos dizer que queiramos a felicidade num certo sentido e esse é um objetivo claramente difinido. Vamos investigar e descobrir de que forma, até agora, impedimos esta felicidade e o que nós podemos fazer agora para consegui-la por esforço próprio. Vamos entender o que isso exige de nós e nos caberá atender a esta exigência se tivermos concluído que isto vale a pena ou não.
Mas não teremos mais a sensação de ter sido uma criança menosprezada e injustamente tratada. Isso é maturidade espiritual e emocional. O papel de Deus não é proporcionar a nós as coisas que não queremos obter por conta própria.
Mas a consciência de Deus é que o mundo d'Ele é tão maravilhoso que nós temos muito mais poder do que havíamos percebido até agora, bastando para isso que nós nos coloquemos em movimento, afastando obstáculos, bloqueios, cobiça, comodismo, covardia.
A correta interpretação das palavras "Seja feita a Tua vontade", é a seguinte: "vou deixar de lado minha vontade individual, minha visão limitada e abrir-me para que o Divino venha a mim."
Êle não virá de fora, mas sim de dentro, como profundo conhecimento e certeza, mas nós não vamos nos dissociar dessa percepção. Não será mais uma questão de "ou eu ou Deus." Ambos seremos um, mas isso somente se nós nos entregarmos, deixarmos de ser rígidos.
Esse é o verdadeiro sentido dessas palavras. O falso sentido nos deixa fracos, obtusos e sem alternativa a não ser deixar que outro ser atue em nosso lugar. Esse outro ser é muitas vezes uma autoridade humana ou uma igreja que alega agir em nome de Deus. Seja feita a tua vontade não significa obediência, significa abrir-se o máximo possível para que uma sabedoria maior passe a fazer parte de nós.
O verdadeiro Divino somente pode operar em almas livres e isso vai acontecer conosco se verdadeiramente nos libertarmos de toda a falsidade que existe em nós.
Trecho de uma palestra do Guia de Eva Pierrakos (P. 88)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
seus comentários são sempre bem vindos. Agradeço sua participação.