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sexta-feira, 24 de junho de 2016

A REFINADA ARTE DA LOUCURA

sem-teto-de-Anhui

Os taoistas afirmam que o ser que possui plena comunhão com o Tao vive imerso no Todo, possuindo uma percepção muito mais ampla do universo, o que o leva a tratar com menos apreço as coisas normais que nos atormentam e prendem nossa atenção do berço ao túmulo. Uma história presente na obra Liezi (“Lieh-tsé”), umas das principais do Taoismo, ilustra bem esse tipo de pessoa.

O HOMEM QUE ESQUECEU

Havia em Sung um homem chamado Huatse, que contraiu ao chegar à meia idade a singular doença de esquecer tudo. Tomava uma coisa de manhã e esquecia-se dela à noite, e recebia uma coisa de noite e já não se lembrava pela manhã. Quando estava na rua esquecia-se de andar, e estando em casa esquecia-se de sentar-se. Não podia recordar-se do passado no presente nem do presente no futuro. E toda a família estava muito aflita com isso. 
Os parentes consultaram o adivinho e não puderam decifrar o caso, consultaram a feiticeira e as rezas não o puderam curar, e consultaram o médico e este não deu remédio. Havia, porém, um letrado confuciano na terra de Lu que disse poder curar o homem. Assim, a família de Huatse ofereceu-lhe metade dos seus bens se ele o livrasse dessa estranha doença. E disse o letrado confuciano:
— A sua doença não é coisa que se possa tratar com predições, com rezas ou com remédios. Vou tentar curar o seu espírito e mudar os objetos do seu pensamento, e talvez ele se restabeleça.
Assim, ele expôs Huatse ao frio e Huatse pediu roupa, deixou-o ter fome e ele pediu comida, fechou-o num quarto escuro e ele pediu luz. Conservou-o numa sala sozinho durante sete dias, sem se importar com o que ele fazia todo esse tempo. E a doença de anos foi curada num dia.
Quando Huatse ficou restabelecido e soube do caso, enfureceu-se. Brigou com a mulher, castigou os filhos e expulsou de casa com uma lança o letrado confuciano. A gente do lugar perguntou a Huatse por que fez isso, e ele respondeu:
— Quando eu estava mergulhado no mar do esquecimento, não sabia se o céu e a terra existiam ou não. Agora eles me despertaram, e todos os triunfos e reveses, as alegrias e as tristezas, os amores e os ódios dos decênios passados voltaram a perturbar o meu peito. Receio que no futuro os triunfos e os reveses, as alegrias e as tristezas, os amores e os ódios continuem a oprimir o meu espírito como me oprimem agora. Posso eu esperar algum dia sequer um instante de esquecimento?
Veja que nosso herói não apenas não se mostrou agradecido por ter sido “curado”, como ainda perseguiu seus “salvadores”. Na verdade ele se encontrava para além da dualidade cósmica de nosso universo, que é regido sempre pela complementariedade entre Yin/Yang. Ele, por outro lado, estava imerso no Tao, na unicidade. Seria ele o doente ou as pessoas consideradas sãs é que estão doentes?
O Budismo trata isso longamente, afirmando que vivemos em uma grande ilusão, “maya”. Essa ilusão nos mantém cativos de um modo de vida artificial, criado por meio da visão turva dos mortais. Ultrapassar esse limiar, livrar-se do apego às coisas banais do mundo, ser um “desperto”, é o grande objetivo final.
Os loucos sempre foram respeitados na China antiga. Nessa civilização nunca houve algo como manicômios ou hospitais psiquiátricos. O louco era respeitado e até mesmo venerado, podendo vagar pelas ruas livremente e sendo alimentado pelas pessoas aqui e ali. Quando proferiam seus discursos erráticos, muitos paravam para prestar atenção. 
Essa atitude que pode nos parecer tão estranha vem do fato de que os chineses sempre entenderam que a diferença entre um louco e um grande sábio é, às vezes, tênue demais para nosso olhar medíocre, perdido nas coisas banais do cotidiano. Tanto o louco quanto o sábio vagam em alturas esplendorosas, fora do alcance de pobres mortais que vivem a se preocupar com suas pequenas necessidades cotidianas.
A 6ª e última linha dos hexagramas do I Ching representa o Louco ou o Sábio, pois é uma linha que está “deixando” o hexagrama, saindo de nosso mundo. É interessante notar que, de modo geral, a linha governante do hexagrama é a 5ª, representada pelo Imperador. Porém o louco junto com o sábio estão acima do próprio imperador, pois representam uma situação muito além do nosso mundo.
Sigamos o Caminho sempre em frente, guiados pela não-ação. Se seremos loucos ou sábios, só o Tao poderá dizer.
E existirá diferença?
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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

quinta-feira, 14 de abril de 2016

TAO - A Sabedoria do Silêncio Interno

TAO - A Sabedoria do Silêncio Interno.



Pense no que vai dizer antes de abrir a boca.

Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia.


Nunca faça promessas que não possa cumprir.

Não se queixe, nem utilize palavras que projectem imagens negativas, porque se reproduzirá ao seu redor tudo o que tenha fabricado com as suas palavras carregadas de Chi.


Se não tem nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho: observe e reflicta a energia. O Universo é o melhor exemplo de um espelho que a natureza nos deu, porque aceita, sem condições, os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções, e envia-nos o reflexo da nossa própria energia através das diferentes circunstâncias que se apresentam nas nossas vidas.

Se se identifica com o êxito, terá êxito. Se se identifica com o fracasso, terá fracasso. Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo da nossa conversa interna. Aprenda a ser como o universo, escutando e reflectindo a energia sem emoções densas e sem preconceitos.

Porque, sendo como um espelho, com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com as suas opiniões pessoais, e evitando reacções emocionais excessivas, tem oportunidade de uma comunicação sincera e fluída.

Não se dê demasiada importância, e seja humilde, pois quanto mais se mostra superior, inteligente e prepotente, mais se torna prisioneiro da sua própria imagem e vive num mundo de tensão e ilusões.

Seja discreto, preserve a sua vida íntima. Desta forma libertar-se-á da opinião dos outros e terá uma vida tranquila e benevolente invisível, misteriosa, indefinível, insondável como o TAO.


Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre dá-nos o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas próprias virtudes e qualidades, a brilhar. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tenha confiança em si mesmo.

Preserve a sua paz interior, evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros. Não se comprometa facilmente, agindo de maneira precipitada, sem ter consciência profunda da situação.

Tenha um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta e só então tome uma decisão. Assim desenvolverá a confiança em si mesmo e a Sabedoria. 

Se realmente há algo que não sabe, ou para que não tenha resposta, aceite o fato. Não saber é muito incómodo para o ego, porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão e dar a sua opinião muito pessoal. Mas, na realidade, o ego nada sabe, simplesmente faz acreditar que sabe.
Evite julgar ou criticar. O TAO é imparcial nos seus juízos: não critica ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julga alguém, a única coisa que faz é expressar a sua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder as nossas próprias fraquezas.

O Sábio tolera tudo sem dizer uma palavra. Tudo o que o incomoda nos outros é uma projecção do que não venceu em si mesmo. Deixe que cada um resolva os seus problemas e concentre a sua energia na sua própria vida. Ocupe-se de si mesmo, não se defenda. Quando tenta defender-se, está a dar demasiada importância às palavras dos outros, a dar mais força à agressão deles.

Se aceita não se defender, mostra que as opiniões dos demais não o afectam, que são simplesmente opiniões, e que não necessita de os convencer para ser feliz. O seu silêncio interno torna-o impassível. Faça uso regular do silêncio para educar o seu ego, que tem o mau costume de falar o tempo todo.
Pratique a arte de não falar. Tome algumas horas para se abster de falar. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do TAO ilimitado, em vez de tentar explicar o que é o TAO. Progressivamente desenvolverá a arte de falar sem falar, e a sua verdadeira natureza interna substituirá a sua personalidade artificial, deixando aparecer a luz do seu coração e o poder da sabedoria do silêncio.
Graças a essa força, atrairá para si tudo o que necessita para a sua própria realização e completa libertação. Porém, tem que ter cuidado para que o ego não se infiltre… O Poder permanece quando o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se o ego se impõe e abusa desse Poder, este converter-se-á num veneno, que o envenenará rapidamente.
Fique em silêncio, cultive o seu próprio poder interno. 

Respeite a vida de tudo o que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo. 

Converta-se no seu próprio Mestre e deixe os demais serem o que têm a capacidade de ser. 

Por outras palavras, viva seguindo a via sagrada do TAO.

fonte: http://mickbernard.blogspot.com.br/2016/03/tao-sabedoria-do-silencio-interno.html#more

 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A FORÇA MALEÁVEL

Conta a lenda que, ao ser perguntado por um menino se era sempre melhor mostrar-se forte e inteligente e não deixar que os outros pensassem que se era fraco e tolo, Lao Tse respondeu: “você deve mostrar que é fraco e tolo, não deixe as pessoas pensarem que é inteligente”. Confuso, o menino argumentou que a maioria das pessoas pregava que ser forte e duro era bom, e ser fraco e mole era ruim. Lao Tse perguntou qual a parte mais dura e a mais mole do corpo. 
Após o menino responder que a mais dura eram os dentes e a mais mole a língua, Lao Tse sentenciou: “olhe para mim, sou tão velho que meus dentes todos já se foram, enquanto minha língua continua intacta. As coisas moles e aparentemente fracas costumam resistir melhor aos ataques do tempo e da vida, uma árvore de tronco duro por exemplo pode ser levada por um furacão, enquanto a grama macia, permanecerá firme no chão, a água maleável é capaz de esculpir duras pedras e montanhas.” 
Lao Tse era um homem surpreendente para seu tempo. Com uma visão original de vida, ele costumava ver com facilidade onde alguém estava insistindo em uma verdade pronta e inútil que trazia dentro de si e, com isso, não percebendo a resposta óbvia e apropriada que se estampava frente a seus olhos. Somos muitas vezes como a mariposa que dorme dentro de nossas casas e, pela manhã, deseja sair para a luz do dia, mas esbarra continuamente no vidro da janela. 
Abrimos a janela ao lado e fazemos de tudo para que ela veja a saída, mas ela insiste em dar novas cabeçadas na vidraça. Se, em vez de tentar ir em linha reta em direção ao seu desejo, ou na direção que considera certa, a mariposa voasse no sentido contrário e se afastasse da janela, poderia perceber que, logo ao lado da vidraça, havia uma saída real. Mas, ela não faz isso, poucos de nós fazemos, Lao Tse fazia. E, por fazer, enxergava o óbvio, que a quase todos costuma escapar. 
O óbvio é o natural. Como maneira de ver-se livre de soluções estudadas e encontrar as naturais, Lao Tse optou ser, ele mesmo, uma pessoa natural. E buscou sempre ser fiel não apenas à natureza exterior, mas à sua natureza interna, ao propósito legítimo e original que trazia dentro de si. Sim, cada pessoa tem sua natureza particular, quando essa natureza floresce, surge com cores e aromas únicos e próprios a cada um. Quando se fala em ser natural, não se pode imitar caminhos alheios ou já prontos desde antes. Todos os rios acabam no oceano, mas o percurso de cada rio até lá é único. 
Daí a dificuldade em ser natural, todos querem ensinar como é certo comportar-se, empurram toneladas de regras, dogmas e verdades para você acatar, acreditar e seguir. Embora o que é natural flua com facilidade de dentro para fora, foram erguidas barreiras contra a natureza pessoal de cada um, não é simples voltar a ser fluente e espontâneo. Já não era nos dias de Lao Tse. Talvez por isso ele tenha sido e seja até hoje uma exceção de lucidez, uma lucidez que grita como uma fratura exposta, mas que poucos vêm por terem sido ensinados a não ver o que é natural. 
Criou-se no homem um medo do natural. Em algum lugar, no fundo dele, foi plantada a convicção de que ser natural é perigoso. E, mesmo em dias em que por ter se afastado de sua natureza o homem está tendo sucesso em destruir o mundo, mesmo em dias em que está óbvio que o grande perigo para a sobrevivência da espécie não está na proximidade dele com a natureza, mas na distância, mesmo em dias assim, o medo de ser natural, onde quer que ele esteja plantado dentro do ser humano, dá frutos em abundância. 
Lao Tse percebeu que a coisa mais revolucionária – ou a única integralmente revolucionária – era seguir a própria natureza. Escutá-la e dar espaço a ela. Quando escutamos nossa natureza, descobrimos que tudo em nós e fora de nós está em movimento. Talvez isso seja mais fácil para um chinês perceber do que para um ocidental. Gostamos muito de substantivos em nossa cultura. 
Quando transformamos algo em substantivo, o transformamos em objeto, e temos a impressão de que podemos possuí-lo, guardá-lo em um bolso ou em um cofre. Para nós, consciência tornou-se um substantivo, o que sugere uma coisa estática, que uma vez alcançada, passa a ser um patrimônio seu. 
Até o amor foi instituído como substantivo em nossa língua, mesmo que abstrato. Para o chinês, tudo é movimento, assim por exemplo, o conceito de “chi”, que é traduzido nos livros em português como energia, para o chinês tem o sentido de “fluxo vital”, algo que corre, se esse algo parar, não é mais chi. Da mesma maneira, consciência e amor são para ele experiências que só podemos almejar no contexto do fluxo vital. 
Para Lao Tse, tudo na vida está em constante movimento, e o movimento do que vemos é dependente e afinado ao movimento do Universo. E, há algo em curso, por trás desse movimento essencial do Universo e por trás de tudo o que se move nele. Esse “algo mais” é o que ele chama de Tao. Há quem traduza a palavra Tao como um “curso contínuo”, sim, o Tao está constantemente se revelando, e é a essência de tudo o que se move no Universo. E tudo se move. 
Lao Tse nunca pretendeu deixar regras para serem seguidas para se alcançar o Tao, mas atentar para sua existência e inspirar quem o lesse a ter olhos próprios para enxergá-lo diretamente. Quando você encontra sua natureza, deixa de depender de regras para saber como agir e ganha maleabilidade. 
Quem age conforme regras estudadas, não tem margem de negociação com a vida, e, muito menos, consciência do que significa uma mudança de rumo. Já quem segue a própria natureza sempre será maleável, como a língua de Lao Tse. Dará resposta personalizada a cada novo desafio e cada nova questão que lhe aparecer. Quem segue sua própria natureza não precisa de certezas, mas de contato consigo e com a vida. 
Essa é parte da mensagem que Lao Tse passou no livro Tao Te King, onde ressaltou a importância de encontrarmos nossa “face original”, uma identidade anterior a todas a máscaras que aprendemos a usar, a todas as falsas noções de nós mesmos que colecionamos durante a vida. Para Lao Tse, uma identidade adquirida nos deixa presos a um mundo ilusório de dualidades, enquanto a identidade original nos leva a uma realidade sem dualidades, logo, imune a conflitos emocionais e psicológicos. 
Ele entende ser o Tao uma essência única, formadora de tudo o que existe, e sugere que quando contatamos essa essência, nos é revelada nossa real identidade, um projeto desenhado para nós nessa vida. Ao contrário da identidade adquirida, que está sempre em disputa e luta contra algo ou contra tudo, nossa face original está em paz e integrada ao Universo. A face original respira próxima do Tao, a dimensão imutável do universo, o lugar de onde viemos; logo, ela é livre de contaminações das ideias e medos que proliferam no mundo dual. 
Para Lao Tse, essa essência do Universo é informe e vive dentro de todas as coisas manifestadas. Mas, para continuar sendo universal, não pode se identificar com nenhuma dessas coisas, nem com o bem ou o mal, com o certo ou o errado, mas viver independente e neutra em relação a tudo. Essa essência não pode igualmente ser descrita, se você disser que ela é luz, você a excluirá do escuro, se você disser que ela é boa, a excluirá daquilo que considera ruim. 
Como onipresente, ela não cabe em definições. Assim, para atingi-la, o caminho possível é o da sensibilidade, entrega e faro intuitivo. Mas, nunca acreditando em definições e ideias que vamos construindo sobre ela durante o caminho. Quando criamos uma definição dessa essência e acreditamos saber o que ela é, acabamos de perdê-la, quando achamos que não a conhecemos, acabamos de abrir a porta da consciência para ela. 
Lao Tse entende que todos temos essa sensibilidade e faro intuitivo dentro de nós; para lançar mão dele, basta que sigamos essa nossa natureza interior. Sua filosofia prega que, assim como a água do rio sempre encontra o caminho para o oceano, quando deixamos que a natureza interior mais íntima guie nossos passos, intuímos por onde prosseguir, até chegarmos ao grande oceano de consciência para o qual fomos moldados. Esse oceano onde o rio da individualidade se integra e dissolve é nada mais, nada menos, que a essência não manifestada de onde viemos, de onde tudo vem, todo o tempo. 
Diz-se na China que Lao Tse era guardião dos manuscritos reais, o equivalente a um bibliotecário em sua época. No final da vida, resolveu se retirar da cidade para meditar nas montanhas. Ao sair, um guarda de fronteira o reconheceu e pediu que deixasse registrada sua sabedoria em um livro. Ele então, que nunca havia escrito nada, sentou-se e escreveu os 81 pequenos poemas do Tao Te King, que sintetizam a sabedoria do taoismo e da China tradicional. 
Nos poemas ele enfatiza a importância de nos esvaziarmos para estarmos disponíveis ao crescimento e evolução e de adotarmos o caminho da brandura para chegar longe. Em certo ponto ele diz “Nada no mundo / demonstra mais suavidade e fraqueza do que a água. // No entanto, / dentre as coisas que atacam o duro e o forte, / nada a supera ou pode barrá-la. // Portanto, o fraco vence o forte, / a maleabilidade vence a rigidez.”  
A água acabou se tornando símbolo do taoismo e da obra de Lao Tse, com todos os seus atributos, de suavidade, sutileza, intuição, fonte da vida e ilimitação de forma. 

Fonte: http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=3065

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A SABEDORIA DO SILÊNCIO INTERNO



Fale apenas quando for necessário. Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso já que cada vez que deixas sair uma palavra, deixas sair ao mesmo tempo uma parte de seu Chi (energia). Desta maneira, aprenderás a desenvolver a arte de falar sem perder energia. Nunca faças promessas que não possas cumprir. Não te queixes, nem utilizes em seu vocabulário, palavras que projetem imagens negativas porque se produzirão ao redor de ti, tudo o que tenhas fabricado com tuas palavras carregadas de Chi.

Se não tens nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor se calar e não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho: observe e reflita a energia. O próprio Universo é o melhor exemplo de um espelho que a natureza nos deu, porque o universo aceita, sem condições, nossos pensamentos, nossas emoções, nossas palavras, nossas ações, e nos envia o reflexo de nossa própria energia através das diferentes circunstâncias que se apresentam em nossas vidas.

Se te identificas com o êxito, terás êxito. Se te identificas com o fracasso, terás fracasso. Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo de nossa conversa interna. Aprende a ser como o universo, escutando e refletindo a energia sem emoções densas e sem prejuízos. Porque sendo como um espelho sem emoções aprendemos a falar de outra maneira. Com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com suas opiniões pessoais e evitando que tenha reações emocionais excessivas, simplesmente permite uma comunicação sincera e fluida.

Não te dês muita importância, e sejas humilde, pois quanto mais te mostras superior, inteligente e prepotente, mais te tornas prisioneiro de tua própria imagem e vives em um mundo de tensão e ilusões. Sê discreto, preserva tua vida íntima, desta forma te libertas da opinião dos outros e terás uma vida tranquila e benevolente invisível, misteriosa, indefinível, insondável como o TAO.

Não entres em competição com os demais, torna-te como a terra que nos nutre, que nos dá o necessário. Ajuda ao próximo a perceber suas qualidades, a perceber suas virtudes, a brilhar. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tem confiança em ti mesmo. preserva tua paz interior evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros.

Não te comprometas facilmente, se agires de maneira precipitada sem ter consciência profunda da situação, vais criar complicações. As pessoas não têm confiança naqueles que muito facilmente dizem “sim” porque sabem que esse famoso “sim”não é sólido e lhe falta valor. Toma um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta a ti e só então tome uma decisão. Assim desenvolverás a confiança em ti mesmo e a Sabedoria.

Se realmente há algo que não sabes, ou não tenhas a resposta a uma pergunta que tenham feito, aceite o fato. O fato de não saber é muito incômodo para o ego porque ele gosta de saber tudo, sempre ter razão e sempre dar sua opinião muito pessoal. Na realidade, o ego nada sabe simplesmente faz acreditar que sabe.

Evite julgar ou criticar, o TAO é imparcial em seus juízos não critica a ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julgas alguém a única coisa que fazes é expressar tua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder tuas próprias fraquezas. O Sábio a tudo tolera, sem dizer uma palavra.

Recorda que tudo que te incomoda nos outros é uma projeção de tudo que não venceu em ti mesmo. Deixa que cada um resolva seus problemas e concentra tua energia em tua própria vida. Ocupa-te de ti mesmo, não te defendas. Quando tentas defender-te na realidade estás dando demasiada importância às palavras dos outros, dando mais força à agressão deles. Se aceitas não defender-te estarás mostrando que as opiniões dos demais não te afetam, que são simplesmente opiniões, e que não necessitas convencer aos outros para ser feliz.

Teu silêncio interno o torna impassível. Faz uso regular do silêncio para educar teu ego que tem o mau costume de falar o tempo todo. Pratique a arte do não falar. Toma um dia da semana para abster-se de falar. Ou pelo menos algumas horas no dia, segundo permita tua organização pessoal. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do TAO ilimitado, ao invés de tentar explicar com palavras o que é o TAO.

Progressivamente, desenvolverás a arte de falar sem falar, e tua verdadeira natureza interna substituirá tua personalidade artificial, deixando aparecer a luz de teu coração e o poder da sabedoria do silêncio. Graças à essa força, atrairás para ti tudo que necessitas para tua própria realização e completa liberação. Porem tens que ter cuidado para que o ego não se infiltre… O Poder permanece quando o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se teu ego se impõe e abusa desse Poder o mesmo Poder se converterá em um veneno, e todo teu ser se envenenará rapidamente.

Fica em silêncio, cultiva teu próprio poder interno. Respeita a vida dos demais e de tudo que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo. Converta-te em teu próprio Mestre e deixa os demais serem o que são, ou o que têm a capacidade de ser. Dizendo em outras palavras, viva seguindo a vida sagrada do TAO.

Tenha uma Bela Vida!

TEXTO TAOISTA