Eu não sou o corpo físico, suas dores e prazeres
a perfeição ou marcas que pode apresentar externa ou internamente
Eu não sou mente
a inteligência, os pensamentos, a capacidade de raciocínio
as memórias de uma vida linear ou de acesso randômico
Não sou palavras ou definições
Não sou o amontoado de títulos e histórico
Eu não sou decorrência do encontro de seres
que gerou outros seres no encontro de um complemento
Eu não sou o que busca razão ou caminha em descoberta
Sou apenas o Ser que a tudo isso observa
Pacífico, completo, consciente
sem discriminar, incluir ou eliminar
sem nomear
sem armazenar sem fixar
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
Só Tenho Tempo Pra Ser Feliz Toquinho Me desculpem, amigos, Não tenho tempo a perder. Vivo e deixo quem quiser viver. Viver é correr perigo, A vida está por um triz. Tenho tempo só pra ser feliz.
Vi formosos mundos por aí, Vi luares prateando o mar. Mas quando se está contente Qualquer cantinho da gente É o melhor lugar que há.
Quem souber olhar em torno e ver Com os olhos sábios de aprendiz, Vai estar de bem com a vida, Vai achar uma saída, Vai um dia ser feliz.
Estes dias descobri a poesia de Mário Benedetti, tão original, tão diferente e ao mesmo tempo tão familiar porque diz tudo aquilo que sempre gostaríamos de expressar e não sabemos como.
DOS AFETOS
Como fazer-te saber que há sempre tempo? Que temos que buscá-lo e dá-lo… Que ninguém estabelece normas, senão a vida… Que a vida sem certas normas perde formas… Que a forma não se perde com abrirmo-nos… Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente… Que não é proibido amar… Que também se pode odiar… Que o ódio e o amor são afetos Que a agressão porque sim, fere muito… Que as feridas fecham-se… Que as portas não devem fechar-se… QUE A MAIOR PORTA É O AFETO… Que os afetos definem-nos… Que definir-se não é remar contra a corrente… Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha… Que buscar um equilíbrio não implica ser frio QUE NEGAR PALAVRAS É ABRIR DISTÂNCIAS… Que encontrar-se é lindo… Que o sexo faz parte da lindeza da vida… Que a vida parte do sexo… Que o porquê das crianças tem o seu porquê… Que querer saber de alguém não é só curiosidade… Que saber tudo de todos é curiosidade malsã… Que nunca é demais agradecer… Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho… Que ninguém quer estar só… Que para não estar só há que dar… Que para dar devemos antes receber… Que para nos darem há também que saber pedir… Que saber pedir não é oferecer-se… Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se… Que para nos quererem devemos mostrar quem somos… Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda… Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar… Que adular não é apoiar… Que adular é tão pernicioso como virar a cara… Que as coisas cara a cara são honestas… Que ninguém é honesto por não roubar… Que o que rouba não é ladrão por prazer, QUE QUANDO NÃO SE TIRA PRAZER DAS COISAS NÃO SE VIVE… Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte… Que se pode estar morto em vida… Que sentimos com o corpo e a mente… Que com os ouvidos se escuta… Que custa ser sensível e não se ferir… Que ferir-se não é sangrar… Que para não nos ferirmos levantamos muros… QUE MELHOR SERIA FAZER PONTES… Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta… Que voltar não implica retroceder… Que retroceder também pode ser avançar… Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol… Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?
TODO CRÉDITO AOS ARTISTAS: CECÍLIA MEIRELES, AMÁLIA RODRIGUES, ALAIN OULMAN E FAGNER. Eu, pobre de talentos artísticos, apenas fiz este ramalhete da beleza das artes: a poesia e a música, que ofereço aos meus queridos leitores. A ARTE DE SER FELIZ (Cecília Meirelles) Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedosmagros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.Outras vezes encontro nuvens espessas.Avisto crianças que vão para a escola.Pardais que pulam pelo muro.Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope da Vega. Às vezes, um galo canta.Às vezes, um avião passa.Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.E eu me sinto completamente feliz.Mas quando falo dessas pequenas felicidades certas,que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. Encomenda (Cecília Meireles) Desejo uma fotografia como esta – o senhor vê? – como esta: em que para sempre me ria como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria, derrame luz na minha testa. Deixe esta ruga, que me empresta um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta nem de arbitrária fantasia… Não… Neste espaço que ainda resta, ponha uma cadeira vazia.Cecília Meireles
O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso...(2x)
O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso (2x)
O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso...(6x)
Agora assistam ao vídeo clip:
Mais uma poesia porque ninguém é de ferro, principalmente com as tragédias que andam rolando pelo mundo.
DESEJO
Desejo, primeiro, que você ame,
e que, amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer
e esquecendo não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que você tenha amigos
que, mesmo maus e inconsequentes,
sejam corajosos e fiéis,
e que pelo menos em um deles
você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
desejo ainda que você tenha inimigos,
nem muitos, nem poucos,
mas na medida exata para que, algumas vezes,você se interpele a respeito
de suas próprias certezas.
E que, entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo, depois, que você seja útil,
mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
quando não restar mais nada,
essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
não amadureça depressa demais,
e que, sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
e que, sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste.
não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
que o riso diário é bom,
o riso habitual é insosso
e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
com a máxima urgência,
acima e a despeito de tudo, que existem oprimidos,
injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
erguer triunfante o seu canto matinal,
porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
por mais minúscula que seja,
e acompanhe o seu crescimento,
para que você saiba de quantas
muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
coloque um pouco dele
na sua frente e diga "isso é meu",
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
por ele e por você,
mas que se morrer, você possa chorar
sem se lamentar, sofrer e sem se culpar.
Desejo por fim que você, sendo um homem,
tenha uma boa mulher,
e que, sendo uma mulher,
tenha um bom homem
e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte,
e quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
não tenho mais a te desejar.
O professor Hermógenes e sua trajetória de vida Foto: Albrecht Gerlach
Se, ao final desta existência,
alguma ansiedade me restar
e conseguir me perturbar;
se eu me debater aflito
no conflito, na discórdia…
Se ainda ocultar verdades
para ocultar-me,
para ofuscar-me com fantasias por mim criadas…
Se restar abatimento e revolta
pelo que não consegui
possuir, fazer, dizer e mesmo ser…
Se eu retiver um pouco mais
do pouco que é necessário
e persistir indiferente ao grande pranto do mundo…
Se algum ressentimento,
algum ferimento
impedir-me do imenso alívio
que é o irrestritamente perdoar,
e, mais ainda,
se ainda não souber sinceramente orar
por quem me agrediu e injustiçou…
Se continuar a mediocremente
denunciar o cisco no olho do outro
sem conseguir vencer a treva e a trave
em meu próprio…
Se seguir protestando
reclamando, contestando,
exigindo que o mundo mude
sem qualquer esforço para mudar eu…
Se, indigente da incondicional alegria interior,
em queixas, ais, e lamúrias,
persistir a buscar consolo, conforto, simpatia
para a minha ainda imperiosa angústia…
Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende…
Se insistir ainda que o mundo silencie
para que possa embeber-me de silêncio,
sem saber realizá-lo em mim…
Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
grosseiros e frágeis
que o mundo empresta,
e eu neles ainda acredito…
apagar
Se, imprudente e cegamente,
continuar desejando
adquirir,
multiplicar,
e reter
valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
na ânsia de ser feliz…
Se, ainda presa do grande embuste,
insistir e persistir iludido
com a importância que me dou…
Se, ao fim de meus dias,
continuar
sem escutar, sem entender, sem atender,
sem realizar o Cristo, que,
dentro de mim,
Eu sou,
terei me perdido na multidão abortada
dos perdulários dos divinos talentos,
os talentos que a Vida
a todos confia,
e serei um fraco a mais,
um traidor da própria vida,
da Vida que investe em mim,
que de mim espera
e que se vê frustrada
diante de meu fim.
Se tudo isto acontecer
terei parasitado a vida
e inutilmente ocupado
o tempo
e o espaço
de Deus.
Terei meramente sido vencido
pelo fim,
sem ter atingido a Meta.